Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Uma ótima obra em refilmagem na forma de um grande erro

Os Homens que Não Amavam as Mulheres de 2009 é cinema sueco baseado em uma obra literária da mesma nacionalidade. A beleza da arte – em geral, não apenas cinema – é o seu poder de metamorfose: dentro da história cinematográfica, nacionalidades literárias já se misturaram com diferentes nacionalidades cinemáticas e conceberam proles que dispensam a ciência de suas origens.

Em suma, refilmagens existem há tempos. É ao mínimo curioso ver um mesmo universo sob outra ótica. Dito isso, Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres de 2011, a versão americana comandada por David Fincher, não é acometido pelo fato de ser uma releitura, mas porque seus realizadores fizeram péssimas escolhas no processo de transposição.

Na trama, Mikael Blomkvist é um jornalista de uma famosa publicação (a Millennium do título) que é obrigado a se afastar da profissão após publicar uma importante matéria sem checar a veracidade dos dados. Mal absorve o impacto das consequências, ele recebe a proposta de investigar um assassinato que ocorreu há 40 anos dentro de uma família, e cujo suspeito é um dos familiares. Paralelamente, temos Lisbeth Salander, uma hacker problemática e com passado misterioso que cruza o caminho de Blomkvist, passando a ajudá-lo na investigação.

O embrião de ambos os filmes é esse. No entanto, talvez por alguma vontade de justificar a refilmagem, o roteirista Steven Zaillian altera eventos que à primeira vista são dispensáveis, mas que na verdade geram conseqüências importantíssimas para a narrativa e, principalmente, seus personagens.

No original, Blomkvist, além de se demonstrar um competente profissional frustrado com sua negligência, é sentenciado a cumprir três meses de detenção, o que acontecerá dentro de seis meses. É deste tempo entre o julgamento e o encarceramento que Blomkvist dispõe para concluir as investigações acerca do assassinato. E é justamente este prazo que a cada dia se mostra mais asfixiante conforme ele descobre mais pistas que faz com que ele busque a ajuda de Lisbeth. Ele, um jornalista sem credibilidade, com um caso intrigante em uma das mãos, mas sem tempo hábil para concluí-lo (levando em consideração o frágil estado de saúde da pessoa que o requisitou), se vê obrigado a enxergar o enorme talento da moça que invadiu seu computador e sua privacidade e estender a outra mão em busca de ajuda.

Nesta versão americana, porém, Blomkvist perde sua credibilidade, mostra-se abatido, mas não é sentenciado à prisão. Logo, quando requisita a ajuda de alguém (que até este momento ele não sabe que será Salander), o pedido soa oco, desnecessário e ilógico – e piora por sabermos que ele próprio é um excelente investigador. Ou seja, se não há um prazo para a conclusão da investigação (apesar de sua natureza urgente, o que é diferente), se o protagonista demonstra-se completamente apto ao serviço, se ele está sendo muito bem pago por uma família milionária, ainda mais que ele precisa de dinheiro, por que a ajuda de Salander? O encontro dos dois, que até então traçavam caminhos distintos, em narrativas distintas, aparece fragilizado, falso, e não melhora quando diz respeito aos laços que eles criam.

Dona de um temperamento extremamente difícil, Salander é uma garota que vive sob a tutela do estado. Isolada de um mundo que uma vez deve ter atacado-a e parece ainda agredi-la, sua homossexualidade é claramente um sistema de defesa (por razões que não convém expor aqui para não entregar informações importantes do filme). Claramente porque, muitas semanas depois de ser obrigada a experimentar a relação com um homem (em condições que, mais uma vez, não convém expor), ela aprofunda seu relacionamento com Blomkvist. Contudo, enquanto no original isso surgia de forma explicitamente catártica, como se para reencontrar uma sensação perdida, aqui eles dormem juntos e dividem cigarro na cama. Uma dissonância gritante e que não condiz em nada com a personalidade da personagem.

Nesta versão, Blomkvist e Salander formam um casal. No original, eles procuram em vão um relacionamento que é impossível devido suas próprias personalidades – primordialmente a de Salander (o foco é ela, não é à toa que o título original é A Garota com a Tatuagem de Dragão). Fora que há tentativas pífias de acrescentar mais camadas à dupla de protagonistas. Ela, com toda a infelicidade que impregna a sua vida, adora comer (sic) Mc Lanche Feliz, uma maneira constrangedora de o roteirista demonstrar a sua infância perdida. E quanto a ele, há as discussões com sua filha beata que não saem do óbvio, do embate amoroso entre um pai descrente e sua prole que vai se dedicar à religião, o que não acrescenta absolutamente nada – e pior fica quando sabemos que sua filha existe na história unicamente para desvendar uma pista que envolve aspectos religiosos, já que depois disso ela é totalmente descartada.

Quanto ao comando de Fincher, basta dizer que ele dá mais peso a esta versão, peso este atrelado à trilha sombria criada por Trent Reznor, aqui em parceria com Atticus Ross, e à fotografia carregada de Jeff Cronemweth, que trabalhou com o cineasta em Clube da Luta (1999) e tantos outros filmes. A concepção de cena do diretor é bem elegante, mas com nenhum grande destaque. Sequer é superior ao trabalho feito por Niels Arden Oplev em 2009, com exceção de dois singelos toques bem dados: a sequência do jantar na casa de vidro, quando ouvimos o que parece ser o vento e só bem depois sabemos o que realmente era, e a execução da música Orinoco Flow, da Enya, que ouvimos em um momento nada propício, culminando em um humor negro bem refinado. Mas são momentos microscópicos perto de 158 minutos de projeção.

Fincher ameniza momentos-chaves, como a grande revelação no final. Ele parece dizer que aquilo não importa, pois o assassinato em si é apenas o pano de fundo para celebrarmos o encontro de dois personagens. Não é assim. Pelo contrário: aqui, a investigação é muito mais interessante que os dois, infelizmente, o que acaba por transformar o longa em uma experiência frustrante. E Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres soa até mesmo complacente, já que ele apazigua aspectos anteriormente subversivos.

No final das contas, é apenas outra visão sobre um mesmo universo e personagens. Piorada, mas é.

The Girl with the Dragon Tattoo – David Fincher – 2011 – 158 min. – 2/5

E-mail: alexandre.carlomagno@yahoo.com.br

Twitter: @alexyubari

2 Respostas

  1. De fato algumas cenas durante a investigação soaram automáticas, mas nada que degrina o filme. Em suma, é excelente, e Fincher de fato turbinou a história. Estava justamente a postos pra assisti-lo e logo após iniciar a leitura dos livros, e essa refilmagem conseguiu me aguçar a isso.Quanto a versão sueca, ainda não a vi, então, não posso falar nada, alguns inclusive a consideram ‘sonsa’ e sem ritmo, veremos.

    PS: A abertura desse filme é extase puro!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 160 other followers