Difícil traçar um panorama sobre as indicações do Oscar 2012. A maioria dos filmes indicados ainda não passou por aqui – dos nove, sete. E dos que passaram, A Árvore da Vida definitivamente deve sair vitorioso. Deve, mas não vai. Filmes do Terrence Malick são penduricalhos de luxo que a Academia sempre faz questão de exibir.
De resto, nenhuma grande surpresa. Tudo como já imaginávamos e como realmente está sendo. Surpresa mesmo, agora, só no dia da cerimônia, que acontecerá no dia 26 de fevereiro.
A seguir, uma lista de 15 anos nos quais a Academia premiou o filme errado. Obras infinitamente melhores que deveriam ter saídas campeãs, mas… Enfim, a Academia é assim de vez em quando. E logo depois, a lista com os indicados para o Oscar 2012.
1942
Quem venceu: Como Era Verde Meu Vale – John Ford
Quem merecia: Cidadão Kane – Orson Wells
O filme de John Ford soa datado hoje, excessivamente meloso – como são alguns de seus trabalhos -, apesar de muito bom. Já o de Orson Wells continua extremamente moderno. Uma visão pungente e impiedosa sobre o poder e a força que ele exerce sobre o ser humano. Uma obra inigualável que justifica figurar em algumas listas como o melhor filme de todos os tempos.
1951
Quem venceu: A Malvada – Joseph L. Mankiewicz
Quem merecia: Crepúsculo dos Deuses – Billy Wilder
Ambos os filmes são clássicos. Na verdade, ambos trabalham a mesma ideia de que a indústria do entretenimento é uma predadora insaciável. No entanto, enquanto A Malvada tem um leque de diálogos inesquecíveis, Crepúsculo dos Deuses é inesquecível por completo: diálogos, sequências, o clima noir, o roteiro, a visão sufocante e ácida de Hollywood, o humor negro e, claro, a direção incomparável de Billy Wilder. Em suma, A Malvada tira um sarro da indústria e Crepúsculo dos Deuses gargalha, cospe e enfia a mão na cara dela.
1952
Vencedor: Sinfonia de Paris – Arthur Freed
Quem merecia: Uma Rua Chamada Pecado – Ellia Kazan
Gene Kelly é sempre muito divertido, assim como é Sinfonia de Paris. Mas Uma Rua Chamada Pecado é um divisor de águas sexual no cinema. Nunca antes um filme havia criado uma tensão erótica tão forte e explícita. Filme inesquecível.
1972
Vencedor: Operação França – William Friedkin
Quem merecia: A Última Sessão de Cinema – Peter Bogdanovich; Laranja Mecânica – Stanley Kubrick
A forma documental como Friedkin abordou a história era inédita até então. No entanto, Operação França não passa de um puta filme de ação, enquanto A Última Sessão de Cinema é um trabalho avassalador sobre a esperança e a melancolia que nela pode existir. Fora que Laranja Mecânica foi o atestado de que a vida imita a arte: com seu lançamento, muitas gangues começaram a surgir.
1974
Vencedor: Golpe de Mestre – George Roy Hill
Quem merecia: Loucuras de Verão – George Lucas; O Exorcista – William Friedkin
A verdade é que Golpe de Mestre é legal. Só. Sua trilha é mais conhecida que o próprio filme. Já Loucuras de Verão é uma verdadeira pérola: uma narrativa espetacular, com diversos personagens e acontecimentos distintos que se desencontram, fora que foi um avanço técnico tremendo para a época: ele foi filmado todo em locação, na rua, então a fotografia e edição de som tiveram que ser especificamente criadas para ele. Além do mais, é um filme sobre a nostalgia que funciona de forma atemporal. E tem O Exorcista, um terror psicológico ímpar que definiu para sempre o conceito de filme sobre exorcismos.
1975
Quem venceu: O Poderoso Chefão II – Francis Ford Coppola
Quem merecia: A Conversação – Francis Ford Coppola
Tudo bem, O Poderoso Chefão II merecia. Mas o primeiro já havia ganhado, e A Conversação é uma verdadeira obra-prima. Um documento que revela de que forma a paranóia pode atingir um indivíduo comum. Filme excepcional e, infelizmente, esquecido pelo tempo.
1977
Quem venceu: Rocky, um Lutador – John G. Avildsen
Quem merecia: Taxi Driver – Martin Scorsese; Rede de Intrigas – Sidney Lumet; Todos os Homens do Presidente – Alan J. Pakula
É um filme delicioso. Algo mais? Não, Rocky, um Lutador para por aí. Já Taxi Driver, Rede de Intrigas e Todos os Homens do Presidente são obras-primas, trabalhos atemporais. O do Scorsese mostra de forma soberba um indivíduo consumido pela sociedade, o do Lumet, um repórter de uma emissora sem-vergonha virar estrela nacional com a sua morte, e o do Pakula, um importante homem do poder ser desnudado por dois jornalistas. Filmes únicos.
1980
Quem venceu: Kramer vs. Kramer – Robert Benton
Quem merecia: Apocalypse Now – Francis Ford Coppola
Confesso: gosto de chorar com Kramer vs. Kramer de vez em quando. O filme é praticamente uma novela de duas horas. E o que dizer de Apocalypse Now? Bem, o próprio Coppola já disse: “Meu filme não é sobre o Vietnam, ele é o Vietnam”. Caso encerrado.
1995
Quem venceu: Forrest Gump, o Contador de Histórias – Robert Zemeckis
Quem merecia: Pulp Fiction – Quentin Tarantino
Tenho o filme do Zemeckis e o defendo com unhas e dentes: não é sobre um retardado que consegue tudo na vida. É uma fábula que brinca com a realidade para contar uma divertida história. É lírico, Forrest Gump. Já Pulp Fiction trouxe de volta aspectos dos anos 70; ele trouxe de volta aos holofotes o cinema independente, agora feito por pessoas independentes, sem formação acadêmica. É uma obra-prima em todos os aspectos.
1998
Quem venceu: Titanic – James Cameron
Quem merecia: Los Angeles – Cidade Proibida – Curtis Hanson
Um dos maiores engodos, a obra de James Cameron. Um Avatar sem 3D. E Los Angeles – Cidade Proibida é uma excelente adaptação da obra de James Elroy. Um noir bruto, com personagens dúbios e trama instigante, como deve ser. É a volta, em grande forma, de um determinado tipo de filme que há muito estava esquecido.
2001
Quem venceu: Gladiador – Ridley Scott
Quem merecia: O Tigre e o Dragão – Ang Lee
O filme de Ridley Scott é um ótimo dramalhão, mas o de Ang Lee, além de ser um drama sensível com sequências de luta inacreditáveis, foi responsável por apresentar a Hollywood o o famoso e milenar gênero Wuxia. Depois de O Tigre e o Dragão, todos os personagens nos filmes americanos de ação davam grandes saltos, como se voassem.
2002
Quem venceu: Uma mente Brilhante – Ron Howard
Quem merecia: todos os outros: Assassinato em Gosford Park – Robert Altman; Entre Quatro Paredes – Todd Field; O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel – Peter Jackson; Moulin Rouge – Amor em Vermelho – Baz Luhrmann
Russel Crowe interpretando ele mesmo num filme da mesma estirpe: um retardado. Qualquer outro indicado é infinitamente superior: o de Altman é um suspense hierárquico executado com seu habitual charme, o de Field é um drama avassalador sobre as consequências da perda, o de Jackson inaugurou uma nova era nos filmes medievais e o de Luhrmann é um verdadeiro estupro visual, estético e narrativo dos musicais.
2003
Quem venceu: Chicago – Rob Marshall
Quem merecia: O Pianista – Roman Polanski
O musical que deveria ter ganhado estava no ano passado: Moulin Rouge. A obra de Polanski é uma visão em dois escopos da Segunda Guerra Mundial: a do pianista do título, como ele sobrevive sozinho, e a do próprio Polanski, ele mesmo um sobrevivente. Um filme de gelar a espinha.
2005
Quem venceu: Menina de Ouro – Clint Eastwood
Quem merecia: O Aviador – Martin Scorsese
A bobagem melodramática de Eastwood tirou a última verdadeira chance de Scorsese levar o Oscar. A história extremamente convencional e irrelevante de superação não deixou a visão de um gigante do cinema sobre um gigante de várias facetas sair vitorioso. O Aviador é muito mais filme em todo e qualquer aspecto.
2006
Quem venceu: Crash – No Limite – Paul Haggis
Quem merecia: O Segredo de Brokeback Mountain – Ang Lee
Crash – No Limite é um ótimo filme. Mas, além de O Segredo de Brokeback Mountain ser um romance destruidor, daqueles que você pode chorar sem culpa, ele foi executado de forma muito mais verdadeira, humana. Quem não derramar uma lágrima sequer no final deve procurar um psiquiatra. E outra: quando, até então, um filme abertamente homossexual foi indicado ao Oscar?
Lista dos indicados ao Oscar 2012:
-Filme
“A Árvore da Vida” (já lançado em DVD)
“”Os Descendentes” (estreia nesta sexta-feira)
“Histórias Cruzadas” (estreia em 3 de fevereiro)
“A Invenção de Hugo Cabret” (estreia em 17 de fevereiro)
“O Homem Que Mudou o Jogo” (estreia em 17 de fevereiro)
“Cavalo de Guerra” (em cartaz)
“O Artista” (estreia em 10 de fevereiro)
“Meia-Noite em Paris” (já lançado em DVD e Blu-ray)
“Tão Forte e Tão Perto” (estreia em 2 de março)
-Direção
Woody Allen – “Meia-Noite em Paris”
Michel Hazanavicius – “O Artista”
Alexander Payne – “Os Descendentes”
Martin Scorsese – “A Invenção de Hugo Cabret”
Terrende Malick – “A Árvore da Vida”
-Ator
Demián Bichir – “A Better Life” (sem data de estreia)
George Clooney – “Os Descendentes”
Jean Dujardin – “O Artista”
Gary Oldman – “O Espião Que Sabia Demais” (em cartaz)
Brad Pitt – “O Homem Que Mudou o Jogo”
-Atriz
Glenn Close – “Albert Nobbs” (estreia em 2 de março)
Viola Davis – “Histórias Cruzadas”
Rooney Mara – “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (estreia nesta sexta)
Meryl Streep – “A Dama de Ferro” (estreia em 10 de fevereiro)
Michelle Williams – “Sete Dias com Marilyn” (estreia em 10 de fevereiro)
-Ator Coadjuvante
Christopher Plummer – “Toda Forma de Amor” (já lançado em DVD)
Jonah Hill – “O Homem Que Mudou o Jogo”
Kenneth Branagh – “Sete Dias com Marilyn”
Nick Nolte – “Guerreiro”
Max von Sydow – “Tão Forte e Tão Perto”
-Atriz Coadjuvante
Berenice Bejo – “O Artista”
Jessica Chastain – “Histórias Cruzadas”
Melissa McCarthy – “Missão Madrinha de Casamento” (já lançado em DVD)
Janet McTeer – “Albert Nobbs”
Octavia Spencer – “Histórias Cruzadas”
-Roteiro original
“O Artista” – Michel Hazanavicius
“Missão Madrinha de Casamento” – Kristen Wiig, Annie Mumolo
“Margin Call – O Dia Antes do Fim” – J.C. Chandor (já lançado em DVD)
“Meia-Noite em Paris” – Woody Allen
“A Separação” – Ashgar Farhadi
-Roteiro adaptado
“Os Descendentes” – Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash
“A Invenção de Hugo Cabret” – John Logan
“Tudo pelo Poder” – George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon (em cartaz)
“O Homem que Mudou o Jogo” – Steven Zaillian, Aaron Sorkin, Stan Chervin
“O Espião que Sabia Demais” – Bridget O’Connor, Peter Straughan
-Animação
“Um Gato em Paris”
“Chico & Rita” (sem data de estreia)
“Kung Fu Panda 2″ (já lançado em DVD e Blu-ray)
“Gato de Botas” (em cartaz)
“Rango” (já lançado em DVD e Blu-ray)
-Canção Original
“Man or Muppet” – “The Muppets” – Música e Letra de Bret McKenzie (em cartaz)
“Real in Rio” – “Rio” – Música de Sergio Mendes e Carlinhos Brown e letra de Siedah Garrett (já lançado em DVD e Blu-ray)
-Trilha sonora
“As Aventuras de Tintim” – John Williams (em cartaz)
“O Artista” – Ludovic Bource
“A Invenção de Hugo Cabret” – Howard Shore
“O Espião que Sabia Demais” – Alberto Iglesias
“Cavalo de Guerra” John Williams
-Filme estrangeiro
Bélgica – “Bullhead” – Michael R. Roskam (sem data de estreia)
Canadá – “Monsieur Lazhar” – Philippe Falardeau (sem data de estreia)
Irã – “A Separação” – Asghar Farhadi (em cartaz)
Israel – “Footnote” – Joseph Cedar (sem data de estreia)
Polônia – “In Darkness” – Agnieszka Holland (sem data de estreia)
-Efeitos visuais
“Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 ” (já lançado em DVD e Blu-ray)
“A Invenção de Hugo Cabret”
“Gigantes de Aço”
“Planeta dos Macacos: A Origem” (já lançado em DVD e Blu-ray)
“Transformers: O Lado Oculto da Lua” (já lançado em DVD e Blu-ray)
-Edição de som
“Drive” (estreia em 24 de fevereiro)
“Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“Transformers: O Lado Oculto da Lua”
“Cavalo de Guerra”
-Mixagem de som
“Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“O Homem Que Mudou o Jogo”
“Transformers: O Lado Oculto da Lua”
“Cavalo de Guerra”
-Direção de arte
“O Artista” – Laurence Bennett, Robert Gould
“Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2″ – Stuart Craig, Stephenie McMillan
“A Invenção de Hugo Cabret” – Dante Ferretti, Francesca Lo Schiavo
“Meia-Noite em Paris” – Anne Seibel, Hélène Dubreuil
“Cavalo de Guerra” – Rick Carter, Lee Sandales
-Fotografia
“O Artista”
“Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“A Árvore da Vida”
“Cavalo de Guerra”
-Figurino
“Anônimo” – (estreia em 17 de fevereiro)
“O Artista”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“Jane Eyre” (sem data de estreia)
“W.E.” (estreia em 30 de março)
-Curta metragem de animação
“Dimanche/Sunday” – Patrick Doyon
“The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore” – William Joyce and Brandon Oldenburg
“La Luna” – Enrico Casarosa
“A Morning Stroll” – Grant Orchard and Sue Goffe
“Wild Life” – Amanda Forbis and Wendy Tilby
-Curta metragem
“Pentecost” – Peter McDonald and Eimear O’Kane
“Raju” – Max Zähle and Stefan Gieren
“The Shore” – Terry George and Oorlagh George
“Time Freak” – Andrew Bowler and Gigi Causey
“Tuba Atlantic” – Hallvar Witz
-Maquiagem
“Albert Nobbs”
“Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2″
“A Dama de Ferro”
-Edição
“O Artista”
“Os Descendentes”
“Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“O Homem Que Mudou o Jogo”
-Documentário longa metragem
“Hell and Back Again” (sem data de estreia)
“If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front”
“Paradise Lost 3: Purgatory”
“Pina” (estreia em 16 de março)
“Undefeated” (sem data de estreia)
-Documentário curta metragem
“The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement”
“God Is the Bigger Elvis”
“Incident in New Baghdad”
“Saving Face”
“The Tsunami and the Cherry Blossom”
E-mail: alexandre.carlomagno@yahoo.com.br
Twitter: @alexyubari
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Texto MUITO bom. Amei os comentários. Só discordo quando você fala sobre A Malvada. Crepúsculo dos Deuses talvez seja mesmo tudo isso, mas poxa… Hahaha.
Valeu pelo elogio, Thiago. Realmente, fica difícil escolher entre os dois. No final, fico com ambos. Mas conversando com um amigo chegamos a uma conclusão: A Malvada é mais roteiro, Crepúsculo dos Deuses é mais filme.
Forte abraço!
Não pude deixar de notar a “semelhança”. Está na edição deste mês e coincidentemente vi hoje em uma banca:
http://mundoestranho.abril.com.br/materia/quais-as-maiores-injusticas-da-historia-do-oscar
Ah, listas como essas existem aos montes.
Forte abraço, meu querido!