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Há algo que simplesmente surte um efeito extasiante em nós quando temos o primeiro contato com aquele tão sonhado objeto – seja a criança com o brinquedo, o adolescente e seu primeiro carro ou o homem de terceira idade e a casa própria. De alguma forma, mantemos esse encantamento tão pueril por toda a vida. E é o caso de Afonso Poyart e seu 2 Coelhos, ou o curta-metragista com o seu primeiro longa-metragem.
Poyart agarra seu filme como uma grande massa e o molda de inúmeras maneiras. Parece que não há forma de seu agrado que ele tenha deixado de gerar – de vários slow motions até transposição de imagens diversas, passando por montagens e grafismos de todas as estirpes. Poyart é um criançola que se deixa levar pelo seu primeiro brinquedo caro, ao custo de uma moeda com duas caras.
De um lado da moeda, atrapalha. É excessiva a sua brincadeira. Falar que essa linguagem epiléptica é condizente com o público jovem não é de todo coerente – veja exemplos como Homem de Ferro ou Tropa de Elite, sucessos absolutos entre os adolescentes. Com 2 Coelhos, parece que a população juvenil sofre de ansiedade hiperbólica. Fora que acaba atrapalhando a narrativa.
Personagens secundários ganham uma importância maior do que realmente têm, caso de Sophia, que surge em meio a uma explosão de letreiros mas nada mais é do que um objeto de ação, uma ferramenta para dar andamento à história. E ilustrar todo e qualquer devaneio do protagonista também não ajuda, tampouco inserir sequências de estética engraçadinhas por bel prazer (como para demonstrar Maicon dando um tiro) corrobora com o filme.
No entanto, há o outro lado. Nele, é interessante ver quão longe Poyart consegue ir – e o público brasileiro avesso a filmes nacionais deve ficar curioso para saber até onde vai esse caminho. Independente disso, e mesmo confuso em alguns momentos, a agilidade abundante de 2 Coelhos consegue nos prender, mas beneficiada enormemente pelo roteiro e elenco.
A primeira metade da trama, quando apresenta o protagonista Edgar e os problemas que o cercam, é ligeiramente desconexa. O espectador precisa fazer certo esforço para compreender o que acontece – e tal esforço para um filme que se pretende despojado pode ser frustrante. Já a segunda metade, quando Poyart corre para a resolução, ele se demonstra dar uma atenção maior à história e seus personagens. É onde o filme cresce e ganha um ritmo delicioso.
Com coadjuvantes interessantes (o moto-boy que assalta usando disfarces de “pizzarias”) que propagam seus diálogos com uma naturalidade divertidíssima (reparem como o bandido reclama ao ter que buscar a espada que ficou no carro), 2 Coelhos encontra seu trio de atores principais o grande trunfo: Fernando Alves Pinto como Edgar, Alessandra Negrini, Julia e Marat Descartes, Maicon. E mesmo que o desfecho de seus personagens não seja dos mais originais, é justamente suas atuações que o tornam cativante ao ponto de querermos saber seus destinos.
Em suma, 2 Coelhos acaba saindo mais como um portfólio de Poyart. É uma ótima demonstração do que ele pode fazer, agora nos resta esperar para ver o que ele fará em um trabalho de verdade.
2 Coelhos – Afonso Poyart – 2011 – 108 min. – 3/5
E-mail: alexandre.carlomagno@yahoo.com.br
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