Procurando Elly

O gênero nosso de cada dia

O que constitui um gênero cinematográfico? Em filmes de todas as estirpes, as consequências coexistem. Nunca é apenas drama, por exemplo. Há sempre o romance no meio, fora tantos outros, ainda que seu cerne seja dramático. No caso de Procurando Elly vemos indícios de um romance despretensioso que ganha contornos misteriosos até o momento em que a eclosão ocorre e abre espaço para rumos que transitam entre o drama e o suspense.

O que o iraniano Asghar Farhadi faz nesta obra-prima é distorcer as nossas percepções. Na trama, um grupo de amigos se isola por dois dias em uma casa no litoral. Todos são casados e com filhos, exceto Ahmad (Shahab Hosseini) e Elly (Taraneh Alidoosti), que estão ali em um encontro às escuras. Após um incidente no qual uma criança quase se afoga, Elly simplesmente desaparece sem deixar vestígios.

As suspeitas são muitas, os fatos são poucos. Vagarosamente as coisas parecem encontrar um norte, mas isso nunca de forma concreta. Esta é a beleza do filme: estamos lado a lado daqueles personagens, ou seja, eles conhecem Elly tanto quanto o espectador. Tudo o que temos são suas próprias observações e desconfianças sobre o evento.

O que aconteceu com a moça? Por que ela sumiria do nada? Ao mesmo tempo em que ficamos atônitos, fisgando na trama toda e qualquer possibilidade de resposta, é sufocante ver aquelas pessoas enclausuradas (como voltar para a casa sem Elly?) e sofrendo com a total falta de possibilidades. A sanidade de todos está à mercê do desfalecimento tamanho o absurdo que os acomete. Eles ficam à beira de um colapso nervoso que se subverte a cada vislumbre de Elly estar ao lado.

Independente de terem ou não vínculos com a moça, aquelas pessoas se importam com ela. E é justamente essa importância meio que humanitária, supérflua, de certa forma (alguns cedem ao cansaço e aceitam que ela tenha morrido), que faz o exemplar roteiro de Asghar Farhadi caminhar sobre uma espessa linha tênue entre o drama e o suspense. Afinal, nós nos envolvemos – em termos dramáticos – com aquelas pessoas, com as consequências, mas queremos muito saber qual a resolução do mistério – em termos de suspense.

Executado de forma simples, sem floreios e por isso mesmo extremamente eficaz, Procurando Elly é uma verdadeira joia rara. É a atribuição de gêneros em um episódio que pode beirar o absurdo, mas passível de acontecer com qualquer um e por isso mesmo possui contornos aterradores.

Darbareye Elly – Asghar Farhadi – 2009 – 119 min. – 5/5

E-mail: alexandre.carlomagno@yahoo.com.br

Twitter: @alexyubari

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