A pele em que Almodóvar habita
Quando Almodóvar deixou de ser Almodóvar? Desde Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980), onde uma mulher se refresca com uma ducha de urina direto da “fonte”, Ata-me (1990), em que o sexo é escravizado e forçado à paixão, Fale com Ela (2002), sobre amor entre um enfermeiro e uma mulher em coma, Volver (2006), com um espírito que é reconhecido pela flatulência, o diretor espanhol concretizou uma forma peculiar de observar o irrisório com seriedade.
Seu cinema ficou esteticamente mais polido, claro. Se quando começou tivesse a estrutura que dispõe hoje, a utilizaria. No que diz respeito à sua forma de narrar, as histórias que conta e a maneira como o faz, Almodóvar errou (Abraços Partidos, de 2009), assim como grandes diretores já erraram, mas vem acertando, e muito, principalmente com este A Pele que Habito.
Adaptação do livro Tarântula, de 1984, escrito por Thierry Jonquet, o filme narra a história de Robert Ledgard (Antonio Banderas), um cirurgião plástico que inicia a elaboração de um novo tecido humano, bem mais resistente, após ver sua esposa se suicidar quando ela confrontou sua imagem deformada, completamente incinerada, devido a um acidente de carro.
A trama vai muito – mas muito – mais além da premissa, por isso é desnecessário discorrer além do parágrafo acima. A Pele que Habito é um longa para se degustar aos poucos, com o intervalo preciso da montagem que lhe é apropriada: sem cortes epiléticos, com a graciosidade costumeira do diretor, em contraponto ao roteiro dinâmico, de idéias que fazem a narrativa fluir perfeitamente – isso, claro, atrelado ao domínio de Almodóvar da linguagem.
Sim, pois não é qualquer um que conta uma história de suspense intrigante com uma boa dose de simbolismos e significados fortes de forma não linear. E isso se deve, também, à habilidade de Almodóvar em enxergar na obra de Jonquet o que não funciona, que no filme são os eventos envolvendo “O Tigre”. Enquanto no livro acompanhamos o personagem desde o início até o ponto em que sua narrativa converge com a de Robert, aqui Almodóvar resolve o problema rapidamente e deixa a sua câmera objetivada para o que é realmente interessante e de suma e saborosa importância: a relação de Robert com sua paciente.
Ao focar em tal relação, Almodóvar, além de traçar uma trama avassaladora (mesmo diante de uma possível previsibilidade as viradas na história são fortuitas), consegue extrair as mais belas e peculiares reflexões acerca do ser humano enquanto um indivíduo sexual. Por mais que nossa imagem social seja polida, bem aceita, ou seja, vistamos uma pele enrijecida por valores morais, é o que está por baixo dela, o nosso âmago de sentimentos, que dita os nossos rumos e o que nós somos. Para Almodóvar, o sexo é fator determinante nessa que é uma subversão moral inerente a todos nós, em maior ou menor grau.
Com isso, A Pele que Habito intriga, agarra com força a nossa atenção, suscita questionamentos relevantes sobre você, espectador, e, exatamente por isso, traz um Almodóvar afiado e em total domínio da sua linguagem.
É como sempre foi e tem sido.
La Piel que Habito – Pedro Almodóvar – 2011 – 117 min. – 4/5
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Realmente vale a pena. SENSACIONAL.
E parabéns pela coluna na Revide. Gostei muito do texto sobre o último “Missão” lançado.
Abraaaassss, Le.
Valeu, meu querido! Obrigado por passar por aqui. Tu sabe que seu blog está ali na coluna esquerda dessta joça, né? Faço questão de indicar!
Um forte abraço, Matheus!
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