A corrupção da causa
No primeiro ato de Tudo Pelo Poder, novo filme de George Clooney, todos os elementos transcorrem ao encontro de um filme político dos mais teatrais (não é a toa que o roteiro é baseado em uma peça). Verborragia sobre índices, posições ideológicas, discursos e mais discursos, tanto em palanques quanto em diálogos truncados, calculados – tudo isso oscilando com um romance insosso, previsível e sem gosto algum. A impressão que se tem é a de que Clooney escalou rostos famosos para prender a atenção do espectador diante tamanha falta de gracejo.
Porém, Tudo Pelo Poder mostra a que veio em seu segundo ato. A partir daí, a trama ganha forças que gradativamente alçam o longa a patamares mais poderosos. Na história, o assessor de um governador que concorre à presidência dos Estados Unidos precisa eliminar os traços de um evento que pode destruir a carreira do seu assessorado, assim como a dele própria. Na trama, ainda que melhore com o seu desenrolar, os esteriótipos permanecem pairando sobre rostos célebres: a repórter que faz de tudo para um furo, o assessor inimigo que pode estar tramando algo, o candidato perfeito que esconde uma enorme falha de caráter e o candidato oposto que possui ares complacentes.
O personagem central, o assessor, é o melhor construído. Seu desenvolvimento é visível, palpável, resultado de um trabalho competente. É ele o cerne dramático e o fio condutor da trama. Suas ações ditam as consequências e os rumos da história que verdadeiramente valem a pena enfrentar o fraquíssimo primeiro ato – e não por acaso, é dele a fala que, não apenas resume o âmago narrativo, como é daquelas que fazem o filme ficar com o espectador após a sessão. Ela é dita em um encontro decisivo entre o personagem e o governador, no terceiro ato, mas expô-la aqui com certeza atenuará seu impacto.
E é apenas no terceiro ato, também, que, com o engrandecimento do filme, é possível perceber que aquele primeiro ato era necessário para servir como base. Tudo Pelo Poder deixa a corrupção política em segundo plano para discorrer sobre a corrupção de caráter de um profissional que acreditava em causas. O universo calculado apresentado no início é um contraponto, simbólico e narrativo, ao caos interior que toma conta do personagem. Poderia não ser tão convencional, praticamente televisivo, o primeiro ato. Clooney, aqui, mais conduz a trama do que dá a ela um tratamento mais digno, mais cinematográfico.
Em suma, Tudo Pelo Poder acaba se revelando um bom e divertido conto sobre os caminhos na política. Impossível não se divertir ao testemunhar as agressões éticas que um sujeito dito bom sofre, mesmo diante de acontecimentos dramáticos. Mas eles acontecem. Ainda que a princípio o filme possa aborrecer, dali a pouco ele empolga. O melhoramento aqui apontado é devido, apenas, pelo roteiro. Tal como um assessor político, o roteiro trabalha junto ao filme para que ele caminhe bem rumo às decisivas. Termina vitorioso, mesmo que seja uma vitória árdua.
The Ides of March – George Clooney – 2011 – 101 min – 4/5
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