Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Uma ótima obra em refilmagem na forma de um grande erro

Os Homens que Não Amavam as Mulheres de 2009 é cinema sueco baseado em uma obra literária da mesma nacionalidade. A beleza da arte – em geral, não apenas cinema – é o seu poder de metamorfose: dentro da história cinematográfica, nacionalidades literárias já se misturaram com diferentes nacionalidades cinemáticas e conceberam proles que dispensam a ciência de suas origens.

Em suma, refilmagens existem há tempos. É ao mínimo curioso ver um mesmo universo sob outra ótica. Dito isso, Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres de 2011, a versão americana comandada por David Fincher, não é acometido pelo fato de ser uma releitura, mas porque seus realizadores fizeram péssimas escolhas no processo de transposição.

Na trama, Mikael Blomkvist é um jornalista de uma famosa publicação (a Millennium do título) que é obrigado a se afastar da profissão após publicar uma importante matéria sem checar a veracidade dos dados. Mal absorve o impacto das consequências, ele recebe a proposta de investigar um assassinato que ocorreu há 40 anos dentro de uma família, e cujo suspeito é um dos familiares. Paralelamente, temos Lisbeth Salander, uma hacker problemática e com passado misterioso que cruza o caminho de Blomkvist, passando a ajudá-lo na investigação.

O embrião de ambos os filmes é esse. No entanto, talvez por alguma vontade de justificar a refilmagem, o roteirista Steven Zaillian altera eventos que à primeira vista são dispensáveis, mas que na verdade geram conseqüências importantíssimas para a narrativa e, principalmente, seus personagens.

No original, Blomkvist, além de se demonstrar um competente profissional frustrado com sua negligência, é sentenciado a cumprir três meses de detenção, o que acontecerá dentro de seis meses. É deste tempo entre o julgamento e o encarceramento que Blomkvist dispõe para concluir as investigações acerca do assassinato. E é justamente este prazo que a cada dia se mostra mais asfixiante conforme ele descobre mais pistas que faz com que ele busque a ajuda de Lisbeth. Ele, um jornalista sem credibilidade, com um caso intrigante em uma das mãos, mas sem tempo hábil para concluí-lo (levando em consideração o frágil estado de saúde da pessoa que o requisitou), se vê obrigado a enxergar o enorme talento da moça que invadiu seu computador e sua privacidade e estender a outra mão em busca de ajuda.

Nesta versão americana, porém, Blomkvist perde sua credibilidade, mostra-se abatido, mas não é sentenciado à prisão. Logo, quando requisita a ajuda de alguém (que até este momento ele não sabe que será Salander), o pedido soa oco, desnecessário e ilógico – e piora por sabermos que ele próprio é um excelente investigador. Ou seja, se não há um prazo para a conclusão da investigação (apesar de sua natureza urgente, o que é diferente), se o protagonista demonstra-se completamente apto ao serviço, se ele está sendo muito bem pago por uma família milionária, ainda mais que ele precisa de dinheiro, por que a ajuda de Salander? O encontro dos dois, que até então traçavam caminhos distintos, em narrativas distintas, aparece fragilizado, falso, e não melhora quando diz respeito aos laços que eles criam.

Dona de um temperamento extremamente difícil, Salander é uma garota que vive sob a tutela do estado. Isolada de um mundo que uma vez deve ter atacado-a e parece ainda agredi-la, sua homossexualidade é claramente um sistema de defesa (por razões que não convém expor aqui para não entregar informações importantes do filme). Claramente porque, muitas semanas depois de ser obrigada a experimentar a relação com um homem (em condições que, mais uma vez, não convém expor), ela aprofunda seu relacionamento com Blomkvist. Contudo, enquanto no original isso surgia de forma explicitamente catártica, como se para reencontrar uma sensação perdida, aqui eles dormem juntos e dividem cigarro na cama. Uma dissonância gritante e que não condiz em nada com a personalidade da personagem.

Nesta versão, Blomkvist e Salander formam um casal. No original, eles procuram em vão um relacionamento que é impossível devido suas próprias personalidades – primordialmente a de Salander (o foco é ela, não é à toa que o título original é A Garota com a Tatuagem de Dragão). Fora que há tentativas pífias de acrescentar mais camadas à dupla de protagonistas. Ela, com toda a infelicidade que impregna a sua vida, adora comer (sic) Mc Lanche Feliz, uma maneira constrangedora de o roteirista demonstrar a sua infância perdida. E quanto a ele, há as discussões com sua filha beata que não saem do óbvio, do embate amoroso entre um pai descrente e sua prole que vai se dedicar à religião, o que não acrescenta absolutamente nada – e pior fica quando sabemos que sua filha existe na história unicamente para desvendar uma pista que envolve aspectos religiosos, já que depois disso ela é totalmente descartada.

Quanto ao comando de Fincher, basta dizer que ele dá mais peso a esta versão, peso este atrelado à trilha sombria criada por Trent Reznor, aqui em parceria com Atticus Ross, e à fotografia carregada de Jeff Cronemweth, que trabalhou com o cineasta em Clube da Luta (1999) e tantos outros filmes. A concepção de cena do diretor é bem elegante, mas com nenhum grande destaque. Sequer é superior ao trabalho feito por Niels Arden Oplev em 2009, com exceção de dois singelos toques bem dados: a sequência do jantar na casa de vidro, quando ouvimos o que parece ser o vento e só bem depois sabemos o que realmente era, e a execução da música Orinoco Flow, da Enya, que ouvimos em um momento nada propício, culminando em um humor negro bem refinado. Mas são momentos microscópicos perto de 158 minutos de projeção.

Fincher ameniza momentos-chaves, como a grande revelação no final. Ele parece dizer que aquilo não importa, pois o assassinato em si é apenas o pano de fundo para celebrarmos o encontro de dois personagens. Não é assim. Pelo contrário: aqui, a investigação é muito mais interessante que os dois, infelizmente, o que acaba por transformar o longa em uma experiência frustrante. E Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres soa até mesmo complacente, já que ele apazigua aspectos anteriormente subversivos.

No final das contas, é apenas outra visão sobre um mesmo universo e personagens. Piorada, mas é.

The Girl with the Dragon Tattoo – David Fincher – 2011 – 158 min. – 2/5

2 Coelhos

Para contratar Afonso Poyart, assista ao filme

Há algo que simplesmente surte um efeito extasiante em nós quando temos o primeiro contato com aquele tão sonhado objeto – seja a criança com o brinquedo, o adolescente e seu primeiro carro ou o homem de terceira idade e a casa própria. De alguma forma, mantemos esse encantamento tão pueril por toda a vida. E é o caso de Afonso Poyart e seu 2 Coelhos, ou o curta-metragista com o seu primeiro longa-metragem.

Poyart agarra seu filme como uma grande massa e o molda de inúmeras maneiras. Parece que não há forma de seu agrado que ele tenha deixado de gerar – de vários slow motions até transposição de imagens diversas, passando por montagens e grafismos de todas as estirpes. Poyart é um criançola que se deixa levar pelo seu primeiro brinquedo caro, ao custo de uma moeda com duas caras.

De um lado da moeda, atrapalha. É excessiva a sua brincadeira. Falar que essa linguagem epiléptica é condizente com o público jovem não é de todo coerente – veja exemplos como Homem de Ferro ou Tropa de Elite, sucessos absolutos entre os adolescentes. Com 2 Coelhos, parece que a população juvenil sofre de ansiedade hiperbólica. Fora que acaba atrapalhando a narrativa.

Personagens secundários ganham uma importância maior do que realmente têm, caso de Sophia, que surge em meio a uma explosão de letreiros mas nada mais é do que um objeto de ação, uma ferramenta para dar andamento à história. E ilustrar todo e qualquer devaneio do protagonista também não ajuda, tampouco inserir sequências de estética engraçadinhas por bel prazer (como para demonstrar Maicon dando um tiro) corrobora com o filme.

No entanto, há o outro lado. Nele, é interessante ver quão longe Poyart consegue ir – e o público brasileiro avesso a filmes nacionais deve ficar curioso para saber até onde vai esse caminho. Independente disso, e mesmo confuso em alguns momentos, a agilidade abundante de 2 Coelhos consegue nos prender, mas beneficiada enormemente pelo roteiro e elenco.

A primeira metade da trama, quando apresenta o protagonista Edgar e os problemas que o cercam, é ligeiramente desconexa. O espectador precisa fazer certo esforço para compreender o que acontece – e tal esforço para um filme que se pretende despojado pode ser frustrante. Já a segunda metade, quando Poyart corre para a resolução, ele se demonstra dar uma atenção maior à história e seus personagens. É onde o filme cresce e ganha um ritmo delicioso.

Com coadjuvantes interessantes (o moto-boy que assalta usando disfarces de “pizzarias”) que propagam seus diálogos com uma naturalidade divertidíssima (reparem como o bandido reclama ao ter que buscar a espada que ficou no carro), 2 Coelhos encontra seu trio de atores principais o grande trunfo: Fernando Alves Pinto como Edgar, Alessandra Negrini, Julia e Marat Descartes, Maicon. E mesmo que o desfecho de seus personagens não seja dos mais originais, é justamente suas atuações que o tornam cativante ao ponto de querermos saber seus destinos.

Em suma, 2 Coelhos acaba saindo mais como um portfólio de Poyart. É uma ótima demonstração do que ele pode fazer, agora nos resta esperar para ver o que ele fará em um trabalho de verdade.

2 Coelhos – Afonso Poyart – 2011 – 108 min. – 3/5

Os 15 melhores perdedores da história do Oscar!

Difícil traçar um panorama sobre as indicações do Oscar 2012. A maioria dos filmes indicados ainda não passou por aqui – dos nove, sete. E dos que passaram, A Árvore da Vida definitivamente deve sair vitorioso. Deve, mas não vai. Filmes do Terrence Malick são penduricalhos de luxo que a Academia sempre faz questão de exibir.

De resto, nenhuma grande surpresa. Tudo como já imaginávamos e como realmente está sendo. Surpresa mesmo, agora, só no dia da cerimônia, que acontecerá no dia 26 de fevereiro.

A seguir, uma lista de 15 anos nos quais a Academia premiou o filme errado. Obras infinitamente melhores que deveriam ter saídas campeãs, mas… Enfim, a Academia é assim de vez em quando. E logo depois, a lista com os indicados para o Oscar 2012.

1942

Quem venceu: Como Era Verde Meu Vale – John Ford

Quem merecia: Cidadão Kane – Orson Wells

O filme de John Ford soa datado hoje, excessivamente meloso – como são alguns de seus trabalhos -, apesar de muito bom. Já o de Orson Wells continua extremamente moderno. Uma visão pungente e impiedosa sobre o poder e a força que ele exerce sobre o ser humano. Uma obra inigualável que justifica figurar em algumas listas como o melhor filme de todos os tempos.

1951

Quem venceu: A Malvada – Joseph L. Mankiewicz

Quem merecia: Crepúsculo dos Deuses – Billy Wilder

Ambos os filmes são clássicos. Na verdade, ambos trabalham a mesma ideia de que a indústria do entretenimento é uma predadora insaciável. No entanto, enquanto A Malvada tem um leque de diálogos inesquecíveis, Crepúsculo dos Deuses é inesquecível por completo: diálogos, sequências, o clima noir, o roteiro, a visão sufocante e ácida de Hollywood, o humor negro e, claro, a direção incomparável de Billy Wilder. Em suma, A Malvada tira um sarro da indústria e Crepúsculo dos Deuses gargalha, cospe e enfia a mão na cara dela.

1952

Vencedor: Sinfonia de Paris – Arthur Freed

Quem merecia: Uma Rua Chamada Pecado – Ellia Kazan

Gene Kelly é sempre muito divertido, assim como é Sinfonia de Paris. Mas Uma Rua Chamada Pecado é um divisor de águas sexual no cinema. Nunca antes um filme havia criado uma tensão erótica tão forte e explícita. Filme inesquecível.

1972

Vencedor: Operação França – William Friedkin

Quem merecia: A Última Sessão de Cinema – Peter Bogdanovich; Laranja Mecânica – Stanley Kubrick

A forma documental como Friedkin abordou a história era inédita até então. No entanto, Operação França não passa de um puta filme de ação, enquanto A Última Sessão de Cinema é um trabalho avassalador sobre a esperança e a melancolia que nela pode existir. Fora que Laranja Mecânica foi o atestado de que a vida imita a arte: com seu lançamento, muitas gangues começaram a surgir.

1974

Vencedor: Golpe de Mestre – George Roy Hill

Quem merecia: Loucuras de Verão – George Lucas; O Exorcista – William Friedkin

A verdade é que Golpe de Mestre é legal. Só. Sua trilha é mais conhecida que o próprio filme. Já Loucuras de Verão é uma verdadeira pérola: uma narrativa espetacular, com diversos personagens e acontecimentos distintos que se desencontram, fora que foi um avanço técnico tremendo para a época: ele foi filmado todo em locação, na rua, então a fotografia e edição de som tiveram que ser especificamente criadas para ele. Além do mais, é um filme sobre a nostalgia que funciona de forma atemporal. E tem O Exorcista, um terror psicológico ímpar que definiu para sempre o conceito de filme sobre exorcismos.

1975

Quem venceu: O Poderoso Chefão II – Francis Ford Coppola

Quem merecia: A Conversação – Francis Ford Coppola

Tudo bem, O Poderoso Chefão II merecia. Mas o primeiro já havia ganhado, e A Conversação é uma verdadeira obra-prima. Um documento que revela de que forma a paranóia pode atingir um indivíduo comum. Filme excepcional e, infelizmente, esquecido pelo tempo.

1977

Quem venceu: Rocky, um Lutador – John G. Avildsen

Quem merecia: Taxi Driver – Martin Scorsese; Rede de Intrigas – Sidney Lumet; Todos os Homens do Presidente – Alan J. Pakula

É um filme delicioso. Algo mais? Não, Rocky, um Lutador para por aí. Já Taxi Driver, Rede de Intrigas e Todos os Homens do Presidente são obras-primas, trabalhos atemporais. O do Scorsese mostra de forma soberba um indivíduo consumido pela sociedade, o do Lumet, um repórter de uma emissora sem-vergonha virar estrela nacional com a sua morte, e o do Pakula, um importante homem do poder ser desnudado por dois jornalistas. Filmes únicos.

1980

Quem venceu: Kramer vs. Kramer – Robert Benton

Quem merecia: Apocalypse Now – Francis Ford Coppola

Confesso: gosto de chorar com Kramer vs. Kramer de vez em quando. O filme é praticamente uma novela de duas horas. E o que dizer de Apocalypse Now? Bem, o próprio Coppola já disse: “Meu filme não é sobre o Vietnam, ele é o Vietnam”. Caso encerrado.

1995

Quem venceu: Forrest Gump, o Contador de Histórias – Robert Zemeckis

Quem merecia: Pulp Fiction – Quentin Tarantino

Tenho o filme do Zemeckis e o defendo com unhas e dentes: não é sobre um retardado que consegue tudo na vida. É uma fábula que brinca com a realidade para contar uma divertida história. É lírico, Forrest Gump. Já Pulp Fiction trouxe de volta aspectos dos anos 70; ele trouxe de volta aos holofotes o cinema independente, agora feito por pessoas independentes, sem formação acadêmica. É uma obra-prima em todos os aspectos.

1998

Quem venceu: Titanic – James Cameron

Quem merecia: Los Angeles – Cidade Proibida – Curtis Hanson

Um dos maiores engodos, a obra de James Cameron. Um Avatar sem 3D. E Los Angeles – Cidade Proibida é uma excelente adaptação da obra de James Elroy. Um noir bruto, com personagens dúbios e trama instigante, como deve ser. É a volta, em grande forma, de um determinado tipo de filme que há muito estava esquecido.

2001

Quem venceu: Gladiador – Ridley Scott

Quem merecia: O Tigre e o Dragão – Ang Lee

O filme de Ridley Scott é um ótimo dramalhão, mas o de Ang Lee, além de ser um drama sensível com sequências de luta inacreditáveis, foi responsável por apresentar a Hollywood o o famoso e milenar gênero Wuxia. Depois de O Tigre e o Dragão, todos os personagens nos filmes americanos de ação davam grandes saltos, como se voassem.

2002

Quem venceu: Uma mente Brilhante – Ron Howard

Quem merecia: todos os outros: Assassinato em Gosford Park – Robert Altman; Entre Quatro Paredes – Todd Field; O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel – Peter Jackson; Moulin Rouge – Amor em Vermelho – Baz Luhrmann

Russel Crowe interpretando ele mesmo num filme da mesma estirpe: um retardado. Qualquer outro indicado é infinitamente superior: o de Altman é um suspense hierárquico executado com seu habitual charme, o de Field é um drama avassalador sobre as consequências da perda, o de Jackson inaugurou uma nova era nos filmes medievais e o de Luhrmann é um verdadeiro estupro visual, estético e narrativo dos musicais.

2003

Quem venceu: Chicago – Rob Marshall

Quem merecia: O Pianista – Roman Polanski

O musical que deveria ter ganhado estava no ano passado: Moulin Rouge. A obra de Polanski é uma visão em dois escopos da Segunda Guerra Mundial: a do pianista do título, como ele sobrevive sozinho, e a do próprio Polanski, ele mesmo um sobrevivente. Um filme de gelar a espinha.

2005

Quem venceu: Menina de Ouro – Clint Eastwood

Quem merecia: O Aviador – Martin Scorsese

A bobagem melodramática de Eastwood tirou a última verdadeira chance de Scorsese levar o Oscar. A história extremamente convencional e irrelevante de superação não deixou a visão de um gigante do cinema sobre um gigante de várias facetas sair vitorioso. O Aviador é muito mais filme em todo e qualquer aspecto.

2006

Quem venceu: Crash – No Limite – Paul Haggis

Quem merecia: O Segredo de Brokeback Mountain – Ang Lee

Crash – No Limite é um ótimo filme. Mas, além de O Segredo de Brokeback Mountain ser um romance destruidor, daqueles que você pode chorar sem culpa, ele foi executado de forma muito mais verdadeira, humana. Quem não derramar uma lágrima sequer no final deve procurar um psiquiatra. E outra: quando, até então, um filme abertamente homossexual foi indicado ao Oscar?

Lista dos indicados ao Oscar 2012:

-Filme

“A Árvore da Vida” (já lançado em DVD)

“”Os Descendentes” (estreia nesta sexta-feira)

“Histórias Cruzadas” (estreia em 3 de fevereiro)

“A Invenção de Hugo Cabret” (estreia em 17 de fevereiro)

“O Homem Que Mudou o Jogo” (estreia em 17 de fevereiro)

“Cavalo de Guerra” (em cartaz)

“O Artista” (estreia em 10 de fevereiro)

“Meia-Noite em Paris” (já lançado em DVD e Blu-ray)

“Tão Forte e Tão Perto” (estreia em 2 de março)

-Direção

Woody Allen – “Meia-Noite em Paris”

Michel Hazanavicius – “O Artista”

Alexander Payne – “Os Descendentes”

Martin Scorsese – “A Invenção de Hugo Cabret”

Terrende Malick – “A Árvore da Vida”

-Ator

Demián Bichir – “A Better Life” (sem data de estreia)

George Clooney – “Os Descendentes”

Jean Dujardin – “O Artista”

Gary Oldman – “O Espião Que Sabia Demais” (em cartaz)

Brad Pitt – “O Homem Que Mudou o Jogo”

-Atriz

Glenn Close – “Albert Nobbs” (estreia em 2 de março)

Viola Davis – “Histórias Cruzadas”

Rooney Mara – “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (estreia nesta sexta)

Meryl Streep – “A Dama de Ferro” (estreia em 10 de fevereiro)

Michelle Williams – “Sete Dias com Marilyn” (estreia em 10 de fevereiro)

-Ator Coadjuvante

Christopher Plummer – “Toda Forma de Amor” (já lançado em DVD)

Jonah Hill – “O Homem Que Mudou o Jogo”

Kenneth Branagh – “Sete Dias com Marilyn”

Nick Nolte – “Guerreiro”

Max von Sydow – “Tão Forte e Tão Perto”

-Atriz Coadjuvante

Berenice Bejo – “O Artista”

Jessica Chastain – “Histórias Cruzadas”

Melissa McCarthy – “Missão Madrinha de Casamento” (já lançado em DVD)

Janet McTeer – “Albert Nobbs”

Octavia Spencer – “Histórias Cruzadas”

-Roteiro original

“O Artista” – Michel Hazanavicius

“Missão Madrinha de Casamento” – Kristen Wiig, Annie Mumolo

“Margin Call – O Dia Antes do Fim” – J.C. Chandor (já lançado em DVD)

“Meia-Noite em Paris” – Woody Allen

“A Separação” – Ashgar Farhadi

-Roteiro adaptado

“Os Descendentes” – Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash

“A Invenção de Hugo Cabret” – John Logan

“Tudo pelo Poder” – George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon (em cartaz)

“O Homem que Mudou o Jogo” – Steven Zaillian, Aaron Sorkin, Stan Chervin

“O Espião que Sabia Demais” – Bridget O’Connor, Peter Straughan

-Animação

“Um Gato em Paris”

“Chico & Rita” (sem data de estreia)

“Kung Fu Panda 2″ (já lançado em DVD e Blu-ray)

“Gato de Botas” (em cartaz)

“Rango” (já lançado em DVD e Blu-ray)

-Canção Original

“Man or Muppet” – “The Muppets” – Música e Letra de Bret McKenzie (em cartaz)

“Real in Rio” – “Rio” – Música de Sergio Mendes e Carlinhos Brown e letra de Siedah Garrett (já lançado em DVD e Blu-ray)

-Trilha sonora

“As Aventuras de Tintim” – John Williams (em cartaz)

“O Artista” – Ludovic Bource

“A Invenção de Hugo Cabret” – Howard Shore

“O Espião que Sabia Demais” – Alberto Iglesias

“Cavalo de Guerra” John Williams

-Filme estrangeiro

Bélgica – “Bullhead” – Michael R. Roskam (sem data de estreia)

Canadá – “Monsieur Lazhar” – Philippe Falardeau (sem data de estreia)

Irã – “A Separação” – Asghar Farhadi (em cartaz)

Israel – “Footnote” – Joseph Cedar (sem data de estreia)

Polônia – “In Darkness” – Agnieszka Holland (sem data de estreia)

-Efeitos visuais

“Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 ” (já lançado em DVD e Blu-ray)

“A Invenção de Hugo Cabret”

“Gigantes de Aço”

“Planeta dos Macacos: A Origem” (já lançado em DVD e Blu-ray)

“Transformers: O Lado Oculto da Lua” (já lançado em DVD e Blu-ray)

-Edição de som

“Drive” (estreia em 24 de fevereiro)

“Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”

“A Invenção de Hugo Cabret”

“Transformers: O Lado Oculto da Lua”

“Cavalo de Guerra”

-Mixagem de som

“Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”

“A Invenção de Hugo Cabret”

“O Homem Que Mudou o Jogo”

“Transformers: O Lado Oculto da Lua”

“Cavalo de Guerra”

-Direção de arte

“O Artista” – Laurence Bennett, Robert Gould

“Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2″ – Stuart Craig, Stephenie McMillan

“A Invenção de Hugo Cabret” – Dante Ferretti, Francesca Lo Schiavo

“Meia-Noite em Paris” – Anne Seibel, Hélène Dubreuil

“Cavalo de Guerra” – Rick Carter, Lee Sandales

-Fotografia

“O Artista”

“Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”

“A Invenção de Hugo Cabret”

“A Árvore da Vida”

“Cavalo de Guerra”

-Figurino

“Anônimo” – (estreia em 17 de fevereiro)

“O Artista”

“A Invenção de Hugo Cabret”

“Jane Eyre” (sem data de estreia)

“W.E.” (estreia em 30 de março)

-Curta metragem de animação

“Dimanche/Sunday” – Patrick Doyon

“The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore” – William Joyce and Brandon Oldenburg

“La Luna” – Enrico Casarosa

“A Morning Stroll” – Grant Orchard and Sue Goffe

“Wild Life” – Amanda Forbis and Wendy Tilby

-Curta metragem

“Pentecost” – Peter McDonald and Eimear O’Kane

“Raju” – Max Zähle and Stefan Gieren

“The Shore” – Terry George and Oorlagh George

“Time Freak” – Andrew Bowler and Gigi Causey

“Tuba Atlantic” – Hallvar Witz

-Maquiagem

“Albert Nobbs”

“Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2″

“A Dama de Ferro”

-Edição

“O Artista”

“Os Descendentes”

“Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”

“A Invenção de Hugo Cabret”

“O Homem Que Mudou o Jogo”

-Documentário longa metragem

“Hell and Back Again” (sem data de estreia)

“If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front”

“Paradise Lost 3: Purgatory”

“Pina” (estreia em 16 de março)

“Undefeated” (sem data de estreia)

-Documentário curta metragem

“The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement”

“God Is the Bigger Elvis”

“Incident in New Baghdad”

“Saving Face”

“The Tsunami and the Cherry Blossom”

Procurando Elly

O gênero nosso de cada dia

O que constitui um gênero cinematográfico? Em filmes de todas as estirpes, as consequências coexistem. Nunca é apenas drama, por exemplo. Há sempre o romance no meio, fora tantos outros, ainda que seu cerne seja dramático. No caso de Procurando Elly vemos indícios de um romance despretensioso que ganha contornos misteriosos até o momento em que a eclosão ocorre e abre espaço para rumos que transitam entre o drama e o suspense.

O que o iraniano Asghar Farhadi faz nesta obra-prima é distorcer as nossas percepções. Na trama, um grupo de amigos se isola por dois dias em uma casa no litoral. Todos são casados e com filhos, exceto Ahmad (Shahab Hosseini) e Elly (Taraneh Alidoosti), que estão ali em um encontro às escuras. Após um incidente no qual uma criança quase se afoga, Elly simplesmente desaparece sem deixar vestígios.

As suspeitas são muitas, os fatos são poucos. Vagarosamente as coisas parecem encontrar um norte, mas isso nunca de forma concreta. Esta é a beleza do filme: estamos lado a lado daqueles personagens, ou seja, eles conhecem Elly tanto quanto o espectador. Tudo o que temos são suas próprias observações e desconfianças sobre o evento.

O que aconteceu com a moça? Por que ela sumiria do nada? Ao mesmo tempo em que ficamos atônitos, fisgando na trama toda e qualquer possibilidade de resposta, é sufocante ver aquelas pessoas enclausuradas (como voltar para a casa sem Elly?) e sofrendo com a total falta de possibilidades. A sanidade de todos está à mercê do desfalecimento tamanho o absurdo que os acomete. Eles ficam à beira de um colapso nervoso que se subverte a cada vislumbre de Elly estar ao lado.

Independente de terem ou não vínculos com a moça, aquelas pessoas se importam com ela. E é justamente essa importância meio que humanitária, supérflua, de certa forma (alguns cedem ao cansaço e aceitam que ela tenha morrido), que faz o exemplar roteiro de Asghar Farhadi caminhar sobre uma espessa linha tênue entre o drama e o suspense. Afinal, nós nos envolvemos – em termos dramáticos – com aquelas pessoas, com as consequências, mas queremos muito saber qual a resolução do mistério – em termos de suspense.

Executado de forma simples, sem floreios e por isso mesmo extremamente eficaz, Procurando Elly é uma verdadeira joia rara. É a atribuição de gêneros em um episódio que pode beirar o absurdo, mas passível de acontecer com qualquer um e por isso mesmo possui contornos aterradores.

Darbareye Elly – Asghar Farhadi – 2009 – 119 min. – 5/5

E-mail: alexandre.carlomagno@yahoo.com.br

Twitter: @alexyubari

Assistindo música, ouvindo cinema

As palavras a seguir não pretendem se transformar em um escrito definitivo sobre a relação tão apaixonada entre música e cinema. Longe, mas muito longe disso. Entenda como a reportagem de reminiscências de uma vida debruçada sobre a sétima arte – essa sim, também, uma convivência de amor.

A música faz parte do cinema e vice-versa. Se você não se lembra de uma determinada cena, então vai se recordar da canção. Da mesma forma como os versos de uma canção qualquer, como, digamos, You Could Be Mine, do Guns’n Roses, o faz lembrar do garotinho protagonista de Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final (1991) saindo de moto com o amigo e um rádio com o som no talo encaixado no ombro.

Sempre foi e será sempre assim. Ora, o cinema mudo era todo embalado por uma trilha orquestrada! Sendo assim, é coerente dizer que a sétima arte é musical por natureza – e os filmes-musicais, aqueles tão em voga na chamada Era de Ouro de Hollywood, que se sucedeu, principalmente, entre as décadas de 40 e 50, foi uma conseqüência do embrião concebido pelos irmãos Lumière.

Com o passar do tempo, conforme o cinema avançava, diretores e mais personalidades que manejavam como ninguém as câmeras se empenharam em transformar a música em um personagem do próprio filme, ou ao menos encaixá-la de forma literalmente memorável. Quem não se lembra da música-tema de …E O Vento Levou! (1939)? Não mesmo? Se você viu algum episódio de Chaves, toda vez em que o professor Girafales e a dona Florinda se encontravam, então ela virá à sua cabeça. E Cantando na Chuva (1952)? Gene Kelly e seu terno ensopado fuzilando o chão de um cenário com o seu sapateado infernal, entoando os tão clássicos versos “I’m singing in the rain/Just singing in the rain/What a glorious feeling…”. E aí a conexão pode ser feita com Laranja Mecânica (1971), clássico absoluto (um dos) de Stanley Kubrick, na sequência em que o protagonista espanca e estupra uma moça enquanto cantarola e subverte completamente a felicidade tão pueril do seu local de origem.

Há diretores como Alfred Hitchcock, por exemplo, que em Os Pássaros (1963), obra pertencente à sua mais prolífera e qualitativa fase, fez uso do som ambiente na forma de música. Ele incorpora o som de milhares de asas de pássaros ao filme para ressaltar o terror. A ausência de trilha sonora, aqui, é, na verdade, a sonoridade de uma trilha impecável: o barulho quase que ensurdecedor das aves é sufocante, causa calafrios. Como deve ser – igualmente, em um exemplo mais contemporâneo, o soberbo Onde os Fracos Não Têm Vez (2009) faz o uso certeiro do silêncio absoluto em dois pontos cruciais da trama: quando o barulho do papel de bala amassado disposto em cima de uma mesa cria a tensão e no final, o desfecho abrupto com o vácuo sonoro latejando ideias e reflexões acerca do seu cerne dramático.

E em Psicose (1960), mais uma obra-prima do mestre do suspense, de forma alguma a icônica sequência do chuveiro seria a mesma coisa sem os violinos pungentes elaborados por Bernard Herrmann – então, o leitor mais atento pode se recordar de um comercial de TV em que a cena é reproduzida, e na “hora H” a mocinha não grita; era de algum remédio para a garganta ou algo do tipo. Enfim, você pode não ter visto o Psicose, pode até não ter visto a tal sequência – inclusive, parodiada inúmeras vezes, de inúmeras formas -, mas com certeza já ouviu a música. E se a ausência de voz da mocinha do comercial, num exemplo microscópico do poder do som em obras audiovisuais, se faz necessário para vender um produto, é justamente o oposto extremo, a elevação máxima do som ambiente que transforma o final do inigualável A Classe Operária Vai ao Paraíso (1971) em uma experiência sensorial inacreditável. Daquelas bem únicas, sabe?

E então existem os “faixas pretas” em casar música com imagens: entre inúmeros (uma infinidade, na verdade), Martin Scorsese e Quentin Tarantino devem ser ressaltados. Como não manter uma lembrança extasiada de Robert De Niro fitando sua próxima vítima em uma cena singela e icônica, em Os Bons Companheiros (1990), ao som de Sunshine Of Your Love, de Eric Clapton? Aliás, no mesmo filme, também com Clapton, no caso Layla, há uma sequência inacreditavelmente espetacular e crucial para a trama. É de arrepiar a espinha tamanha a qualidade de concepção de cena. Impecável. E quanto ao Tarantino, entre todos os seus filmes, todos lotados de músicas e momentos memoráveis, um é indispensável – a síntese tarantinesca: a abertura de Pulp Fiction – Tempos de Violência (1994) carregada pelos acordes violentos de Dick Dale e a sua Misirlou.

Enfim, as possíveis conexões são infindáveis. Há mesmo quem escute uma música e tenta se lembrar de qual filme pertence, sendo que ela não vem do cinema, mas de outra fonte qualquer. Não é à toa que o cinema também atende pelo nome de audiovisual. A música existe e coexiste com ele, e isso mesmo quando inexiste, como no caso das aves do Hitchcock.

Um Dia

Ironicamente, um indecente olhar sobre a moral

Em Educação (2009), seu filme anterior, a diretora dinamarquesa Lone Scherfig discursava sobre o possível rompimento da moralidade sob a ótica dos anos 60. Em Um Dia, ela vem novamente com a mesma análise, mas no decorrer de duas décadas: no roteiro de David Nicholls, baseado no livro homônimo de sua autoria, vemos a vida de um casal de amigos a partir de 1988 até 2011, sempre no dia 15 de julho.

No final dos anos 80, quando os conhecemos e eles se conhecem, Emma (Anne Hathaway) quer encontrar o seu lugar no mundo e Dexter (Jim Sturgess) quer encontrar o seu lugar a cada dia, da forma mais hedonista possível. Naquela noite, eles quase fazem sexo. Ela, uma inexperiente, ele, despojado e seguro de si. Então, quando a narrativa engata, a intenção é mostrar as divergências entre uma determinada escolha e o ponto culminante da projeção que se fez dela.

Mas as coisas não funcionam muito bem em Um Dia. Em determinados momentos a narrativa parece se apressar (1997 é apenas um mergulho, literalmente), em outros o tempo é correto, pois vemos praticamente um dia inteiro entre ambos, mas a passagem dos anos não se faz sentir. Sabemos que os anos estão sendo deixados para trás, mas não sentimos o reflexo dessa passagem na frente. Soa como uma trama cronologicamente linear, sem saltos, e estranhamente condensada, anacrônica – isso porque vemos basicamente Emma e Dexter na tela, sem nenhum coadjuvante de peso que não sejam os pais do rapaz.

Porém, o problema real de Um Dia está na forma como a relação entre seus protagonistas é trabalhada, com um moralismo latente e retrógrado. Emma, aquela que deseja algo a mais da sua existência, faz concessões e abraça sacrifícios de modo a alcançar, com muito custo (inclusive casar com um homem que não ama, apesar de cuidar dela e ser carinhoso, ou ficar dois anos em um emprego que ela mesmo denomina de “cemitério das ambições”), seus objetivos. Dexter, “arroz de festa” que se transforma em apresentador de televisão, consegue dinheiro, fama, mulheres, mas por consequência se distancia de seus familiares e se perde em sua existência ao ponto de constituir ele mesmo uma família desestruturada.

A moça inexperiente no sexo que passa por inúmeros perrengues para lançar um livro, ultrapassa diversas situações desagradáveis e, em dado momento, amadurece, evolui enquanto pessoa. O moço que apenas usufruiu o momento retrocede no tempo e transforma-se, com o passar de suas experiências, em uma pessoa imatura. De um lado está o moralismo, de outro, a libertinagem: você só consegue o que quer com esforço e abdicando de prazeres, principalmente aqueles julgados fúteis. Segundo o filme, ambos não podem andar de mãos juntas.

No entanto, quando as mãos se encontram a convivência é inviável: o caminho para a vida deve ser correto, clama Um Dia. Só assim a conquista é certa. Não é a toa que determinado personagem diz a Dexter que Emma o deixou mais decente, o que aos olhos alheios ele não era. Por isso o moralismo desfalece ao passar para o outro lado do muro. Para o filme, a libertinagem aniquila tudo e a todos a sua volta. E também não é a toa que, na imagem final, luzem se acendem sobre a moça num processo imagético de canonização. Puro moralismo barato.

One Day – Lone Scherfig – 2011 – 107 min. – 1/5

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Globo de Ouro 2012

O ano passado não teve grandes surpresas. Em comparação a 2010, A Rede Social já liderava todas as apostas meses antes de qualquer grande premiação. O que temos para 2012, referente a 2011, são figuras de praxe: George Clooney, Steven Spielberg, Martin Scorsese, David Fincher, Meryl Streep, Woody Allen e por aí vai. Longe de estes artistas terem concebido obras que não mereçam figurar entre os indicados, mas é o que geralmente se espera deles.

Há filmes aclamados, como O Artista e Os Descendentes, que saíram como vitoriosos; atuações elogiadíssimas, como Jean Dujardin e Meryl Streep, respectivamente de O Artista e A Dama de Ferro, que saíram vitoriosas, da mesma forma como George Clooney por Os Descendentes e Michelle Willians, My Week With Marilyn; e Martin Scorsese saiu como o melhor diretor, o que não também surpreende ninguém.

Entre as principais indicações, nenhum seria uma surpresa. Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres, versão de Fincher que parece violentar o original sueco Os Homens que não Amavam as Mulheres, apareceu apenas por meio Rooney Mara, indicada a melhor atriz, assim como Michael Fassbender e Shame, um filme de temática sexual forte e cheio de nudez frontal que teve apenas o seu ator entre os cinco finalistas.

Ainda assim, foi bom ver o excelente As Aventuras de Tintim levar como melhor animação – mesmo que Rango seja mais audacioso. E o ótimo Meia-Noite em Paris teve o melhor roteiro, o que o coloca ao lado das premiações óbvias que dominaram a noite.

De qualquer forma, a grande maioria das obras indicadas ao Globo de Ouro 2012 ainda está para estrear. É esperar para ver, principalmente no Brasil, onde o grande vencedor O Artista, por exemplo, que segue como uma das grandes promessas para o Oscar, sequer tem distribuidora. Como muito bem apontaram o leitor Thiago Dantas e a minha amiga Roberta Assef, realmente, a Paris Filmes vai distribuir O Artista aqui no Brasil, com previsão de estreia para 10 de fevereiro. Agora é esperar para ver.

Segue abaixo a lista dos vencedores, com links para suas respectivas críticas (e os links serão atualizados conforme os lançamentos no cinema):

 

Melhor filme dramático

-Os Descendentes

-Histórias Cruzadas

-A Invenção de Hugo Cabret

-Tudo pelo Poder

-O Homem Que Mudou o Jogo

-Cavalo de Guerra

Melhor ator em filme dramático

-George Clooney – Os Descendentes

-Leonardo DiCaprio – J. Edgar

-Michael Fassbender – Shame

-Ryan Gosling – Tudo pelo Poder

-Brad Pitt – O Homem Que Mudou o Jogo

Melhor filme de humor ou musical

-The Artist

-Missão Madrinha de Casamento

-My Week With Marilyn

-Meia-Noite em Paris

-50%

Melhor atriz em filme dramático

-Meryl Streep – A Dama de Ferro

-Glenn Close – Albert Nobbs

-Viola Davis – Histórias Cruzadas

-Rooney Mara – Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres

-Tilda Swinton – Precisamos Falar Sobre o Kevin

Melhor ator em filme de humor ou musical

- Jean Dujardin – The Artist

-Brendan Gleeson – O Guarda

-Joseph Gordon-Levitt – 50%

-Ryan Gosling – Amor a Toda Prova

-Owen Wilson – Meia-Noite em Paris

Melhor diretor

-Martin Scorsese – A Invenção de Hugo Cabret

-Woody Allen – Meia-Noite em Paris

-George Clooney – Tudo pelo Poder

-Alexander Payne – Os Descendentes

-Michel Hazanavicius – The Artist

Melhor atriz coadjuvante

-Octavia Spencer – Histórias Cruzadas

-Bérénice Bejo – The Artist

-Jessica Chastain – Histórias Cruzadas

-Janet McTeer – Albert Nobbs

-Shailene Woodley – Os Descendentes

Melhor filme em língua estrangeira

-A Separação (Irã)

-A Pele que Habito (Espanha)

-O Garoto da Bicicleta (Bélgica)

-In the Land of Blood and Honey (EUA)

-The Flowers of War (China)

Melhor roteiro

-Woody Allen – Meia-Noite em Paris

-George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon – Tudo pelo Poder

-Michel Hazavanicious – The Artist

-Jim Rash, Nat Faxon, Alexander Payne – Os Descendentes

-Aaron Sorkin, Steve Zaillian – O Homem Que Mudou o Jogo

Melhor longa animado

-As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne

-Operação Presente

-Carros 2

-Gato de Botas

-Rango

Melhor atriz em filme de humor ou musical

-Michelle Williams – My Week With Marilyn

-Jodie Foster – Carnage

-Charlize Theron – Jovens Adultos

-Kristen Wiig – Missão Madrinha de Casamento

-Kate Winslet – Carnage

Melhor canção original

-“Masterpiece” – W.E.

-”Hello Hello” – Gnomeu & Julieta

-”Lay Your Head Down” – Albert Nobbs

-”The Living Proof” – Histórias Cruzadas

-”The Keeper” – Redenção

Melhor trilha sonora original

-Ludovic Bource – The Artist

-Abel Korzeniowski – W.E.

-Trent Reznor e Atticus Ross – Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres

-Howard Shore – A Invenção de Hugo Cabret

-John Williams – Cavalo de Guerra

 

Melhor ator coadjuvante

-Christopher Plummer – Toda Forma de Amor

-Kenneth Branagh – My Week With Marilyn

-Albert Brooks – Drive

-Jonah Hill – O Homem Que Mudou o Jogo

-Viggo Mortensen – Um Método Perigoso

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As Aventuras de Tintim

O restabelecimento moral de um diretor

Assim como em Super 8, outro longa-metragem com propósitos nostálgicos não por acaso produzido por Steven Spielberg, o logo dos anos 80 da Amblin Entertainment antecede os créditos iniciais de As Aventuras de Tintim e, juntamente com a animação 2D dos letreiros (no mesmo esquema de Prenda-me Se For Capaz, 2002) seguida do mundo digital que nos é apresentado, surge uma dicotomia: a óbvia intenção de nos levar ao passado é carregada pela tecnologia mais afiada de animação computadorizada. Por mais que o filme traga todos os elementos clássicos de uma boa aventura e consiga – maravilhosamente bem – nos transportar a ela, em momento algum deixamos de contemplar o esmero digital conquistado.

E o principal aspecto a ser notado são as expressões. Os personagens vistos ao longo do filme não apenas ficam bravos, desconfiam, temem ou se animam, como nós percebemos isso por meios dos seus rostos, principalmente de seus olhares. Nisso, o filme dirigido por Spielberg e produzido por Peter Jackson já merece aplausos: eles quebram de vez a barreira dramática da inexpressividade dos olhares em personagens digitais – e não é a toa que Spielberg, na confiança do que está concebendo, muitas vezes aproxima a câmera nos rostos sem medo algum de sair constrangido.

Indo além na sua forma computadorizada, As Aventuras de Tintim comporta uma estrutura narrativa e uma trama que voltam no tempo de uma maneira deliciosamente despretensiosa. O personagem-título, criado por Hergé, se vê em meio a uma situação misteriosa por acaso. Ele não sabe o que está acontecendo, e muito menos o espectador, assim vamos desvendando os mistérios juntamente com seu raciocínio perspicaz. Essa é uma característica primordial em filmes da estirpe. Fora a trama, que envolve grandes riquezas, indivíduos com passados significativos e um desfecho que só acontece de fato nos minutos final. Todos os ingredientes que fazem jus à palavra que antecede o nome do protagonista no título.

Spielberg já havia feito isso de forma esplendorosa com Indiana Jones e volta a repetir o feito. Aliás, é justo dizer que este As Aventuras de Tintim é tudo o que Indiana Jones e O Reino das Caveiras de Cristal (2008), de longe o pior da franquia, gostaria de ser, mas não é: enquanto este segundo peca no uso excessivo de efeitos especiais, afastando-o assim de qualquer lembrança com o cinema dos anos 40 (década reverenciada na saga), aqui esses mesmos efeitos tomam para si cada borda da tela e criam uma espécie de pintura pós-moderna que sempre nos remete aos filmes de grandes aventuras.

E é bom ver que o mesmo Spielberg moralista que apagou as armas na edição em DVD restaurada de E.T. – O Extraterrestre (1982) agora não se preocupa em colocar um jovem personagem para atirar ou mesmo mostrar sangue – mesmo que pouco – em uma aventura certamente indicada para toda a família. Por isso, As Aventuras de Tintim não apenas é um excelente representante dos filmes-nostálgicos, como é ele que veio restabelecer a moral de um diretor responsável por grandes clássicos infantis feitos também para o paladar dos adultos.

The Adventures of Tintim – Steven Spielberg – 2011 – 107 min. – 4/5

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Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras

Muito barulho por nada

Ninguém se importa com o Sherlock Holmes. A proposta no filme de 2009, que se repete aqui, de reinventar o clássico detetive das páginas escritas por Sir Arthur Conan Doyle no cinema se deve unicamente pela boa fase que vive o ator Robert Downey Jr. E é com ele que a plateia se importa. Aliás, se interessa, pois todos esperam a aparição do ator com seus trejeitos e feições engraçadinhas. Dramaticamente falando, o destino do personagem pouco importa: se ele está em uma situação de perigo, é pela possibilidade de não vê-lo atuar no filme que o temor surge – temor brando este, já que eles nunca matarão algo que vale milhões de ingressos.

E o mesmo vale para o Dr. John Watson de Jude Law, um coadjuvante que vem para estabelecer a química entre os dois. Esse é outro aspecto que vale à plateia: a química entre os atores – na verdade, em tom dicotômico: é o Downey Jr, o ator, que se faz aparecer pelas ações do inocente Watson, o personagem, pois Law está longe de gozar da mesma popularidade do seu companheiro de cena. Sendo assim, enquanto franquia, Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras vem apenas para confirmar seu entretenimento nocivo: o protagonista não morre, apesar de correr perigo – o que automaticamente anula qualquer aflição do espectador -, caso contrário a continuidade do lucro é interrompida – mesma coisa com Piratas do Caribe e o seu Jack Sparrow de Johnny Depp, por exemplo.

Dito isso, o que nos resta é a diversão. Um longa da estirpe, com orçamento pomposo pode e deve nos proporcionar duas horas (no caso, 129 minutos) do melhor aproveitamento dos recursos que lhe são dispostos. Mas não é o caso, infelizmente.

A trilha sonora de Hans Zimmer é ótima, impactante na medida certa, sem ser excessivamente intrusiva, mas ela embala sequências de ação (principalmente aquelas que envolvem combate corpo a corpo) mal filmadas. Quando está em uma luta, dificilmente conseguimos compreender o trajeto dos golpes de Sherlock Holmes ou mesmo dos seus adversários – seja em uma sequência pequena, como a do beco, logo no início, ou em uma de proporções maiores, como o primeiro encontro do protagonista com a cigana, em uma enorme luta que dá volta por uma casa de diversão. A câmera inquieta do diretor Guy Ritchie não anda em harmonia com a fotografia escura de Philippe Rousselot.

Quanto ao roteiro, sabemos que alguém está em perigo e que o duo de protagonistas está envolvido, seja armados com um revólver ou uma piada. A presença de Mycroft Holmes (Stephen Fry) não representa importância alguma à trama senão a curiosidade de sabermos que Holmes possui um irmão. A cigana Simza (Noomi Rapace) é a típica mulher misteriosa linda que vem de um grupo de pessoas feias, horrorosas (os ciganos estereotipados), e em muitas vezes parece mais um estorvo. Por inserir ela na trama, os roteiristas inserem também alguma coisa relacionada ao irmão dela que na maior parte do filme sequer conseguimos absorver o que isso indicado de fato.

Em um ritmo absurdamente frenético, Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras (reparem como a palavra “jogo” é repetida inúmeras vezes no primeiro ato, em uma referência irritantemente óbvia dos roteiristas ao título) engata no máximo e segue até o final: no ímpeto máximo de abraçar o maior número de possibilidades – ação, suspense, drama, comédia, romance, tudo picado e distribuído em parcelas ao longo da projeção. Não transcorre normalmente, tanto que sua abundância chega a causar fadiga.

Personagem e filme, no final das contas, ambos seguem na mesma proposta: pouco importa o que acontece com eles, pois a intenção de seus realizadores são outras.

Sherlock Holmes: A Game of Shadows – Guy Ritchie – 2011 – 129 min. – 1/5

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As Aventuras de Agamenon – O Repórter

O cinema enquanto televisão dessintonizada

“Ele foi a maior brochada da minha vida. Mas, ainda assim, foi o máximo… Aliás, o mínimo, não?”, diz Suzana Vieira, apontando o polegar e o indicador em referência ao pênis do personagem. “Minha relação com ele é de amor e ódio. 99,9% ódio e o resto é amor”, diz Pedro Bial. “Na verdade, Agamenon nasceu no jardim Miserê” – seguido de imagens de um lugar extremamente pobre – e “Sua mulher fez a campanha ‘DOE A BUNDA’, que conseguiu arrecadar muitos ‘fundos’ aos companheiros”, diz Fernanda Montenegro, a narradora. “Hoje, eu não que ir para o ‘front’, quero entrar no ‘bunker’”, fala o protagonista à sua amante, na época em que era soldado, enquanto a agarra por trás.

Cansou de ler essas piadas óbvias e de péssimo gosto? Pois As Aventuras de Agamenon – O Repórter, filme baseado em um personagem fictício criado por Hubert e Marcelo Madureira (ex-Casseta e Planeta) há duas décadas para o jornal O Globo, está recheado com elas, do início ao fim. Inclusive, não se contentando com o humor rasteiro e pobre que já vinham desenhando na televisão, eles ainda repetem algumas delas – caso de quando os tripulantes do Titanic “ouvem Bob Marley, mesmo ele não existindo na época” e, quando ao lado de Getúlio Vargas, este pede participação nos lucros da Petrobras e obtém a resposta: “Mas ela nem existe ainda!” E isso em curtos 74 minutos de projeção.

Acontece que o filme dirigido por Victor Lopes é mais um típico caso de trabalho de televisão camuflado de cinema. Tudo, do roteiro à produção, remete a programas televisivos – especificamente o falecido Casseta e Planeta. Os enquadramentos são extremamente fechados nos rostos dos atores, algo típico da TV, para caber na tela bem menor, e só abrem quando há mais “palhaçada” para mostrar, como no caso da sequência musical no navio. E se a fotografia sequer se faz notar, infelizmente o mesmo não pode ser dito do elenco, em especial os “ex-cassetas”, que propagam suas falas em alto tom, com uma cadência forçada, como se mais alto significasse mais graça.

E ainda que alguns efeitos especiais funcionem, principalmente quando o protagonista (jovem, vivido por Marcelo Adnet, adulto, por Hubert) está ao lado de figuras como Albert Einstein, Adolph Hitler e Osama Bin Laden, tudo não passa de um enorme desperdício – em um desses encontros, a já batida e completamente sem graça piada envolvendo flatulência dá as caras. O longa não tem ligamento. São varias quadros humorísticos ligados por um fio quebradiço de narrativa. Localizar o personagem no tempo e espaço da história é tarefa árdua, muitas vezes impossível – lembrando: são apenas 74 minutos de filme, o que torna toda essa lástima o único grande feito dos realizadores.

Na tentativa de ser um documentário falso nos moldes de Zelig (1983) ou Borat (2006) com uma mistura de Forrest Gump (1994), já que o personagem-título percorre diversos momentos históricos, As Aventuras de Agamenon – O Repórter é um tremendo desastre indigesto. Um pequeno filme que surte no espectador o exercício de enorme paciência para que o fim logo chegue.

As Aventuras de Agamenon – O Repórter – Victor Lopes – 2011 – 74 min. – 1/5

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Cavalo de Guerra

Uma ode ao “bom cinema”

Sabe a expressão “não fazem mais filmes como antigamente” que muitos conservadores, classicistas e afins bradam de boca em boca? Pois bem, Cavalo de Guerra, o novo trabalho de Steven Spielberg como diretor, faz parte deste cinema de antigamente que alguns furibundos acreditam não serem feitos hoje. E isso em todos os sentidos e aspectos da obra, com todas as consequências que um longa da estirpe acarreta quando inserido no cinema deste novo século.

Do início ao fim, Cavalo de Guerra exala o “bom cinema” feito nos anos 30 e 40. Entre aspas sim, pois, além de subjetiva, essa é uma adjetivação que, quando direcionada a um determinado filme, é pertinente à sua própria época. E o filme de Spielberg não pertence a esta época. Seus valores já não cabem na dramaturgia humanamente crua tão vigente ultimamente. São valores pertencentes ao romancismo praticamente utópico de outrora, de tempos em que o drama – na acepção sentimental da palavra – regia soberano uma história.

O péssimo livro homônimo de Michael Morpurgo é a base para o roteiro de Cavalo de Guerra. Roteiro este que discursa sobre o espírito humano em meio a seres humanos depredados pela guerra – no caso, a 1ª Guerra Mundial, em 1914. Na trama, Albert torna-se amigo de Joey, um cavalo que ninguém acredita na força, mas que seu empenho sempre doutrinado pelo garoto salva sua família de perder a fazenda. Quando a guerra chega, o cavalo parte junto com ela.

Com esta premissa, Spielberg se esbalda em pintar a tela com grandes planícies, movimentos de câmera solenes, calmos, como quem acaricia seus personagens. A concepção de cena do diretor é, para dizer o mínimo, espetacular, de um tipo que apenas olhos calejados como os dele são capazes de conceber. E se em outra inserção em “tempos idos” com Indiana Jones e a Caveira de Cristal o diretor abusava horrivelmente dos efeitos computadorizados, aqui ele merece aplausos por utilizar a tecnologia de forma econômica, para auxiliar a história, tal como deve ser. Isso atrelado a uma fotografia que a todo segundo remete aos grandes clássicos, com direito a carregar todas as cenas com um drama que transborda em pieguice.

Sim, pois, infelizmente, Spielberg não se afasta do drama insosso de Morpurgo. Toda e qualquer ação na tela é imbuída em uma complacência que pode causar enjôo. Pode, algumas vezes chega a causar, mas na maior parte do tempo apenas somos tragados pelo conservadorismo tão deliciosamente desavergonhado com o qual o diretor faz questão de filmar. De tão seriamente piegas, essa abundância de sentimentos nauseabundos chega ser boa.

Com Cavalo de Guerra, Spielberg vem provar que há alguma verdade naquela expressão. Todo o seu conceito nostálgico, afinal de contas, acaba não passando de uma ode a um tipo de cinema que era feito antigamente.

War Horse – Steven Spielberg – 2011 – 146 min. – 3/5

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Os 10 melhores filmes de 2011

1. A ÁRVORE DA VIDA | Terrence Malick

2. CÓPIA FIEL | Abbas Kiarostami

3. MELANCOLIA | Lars Von Trier

4. A PELE QUE HABITO | Pedro Almodóvar

5. NAMORADOS PARA SEMPRE | Derek Cianfrance

6. CONTÁGIO | Steven Soderbergh

7. RANGO | Gore Verbinski

8. CISNE NEGRO | Darren Aronofsky

9. PLANETA DOS MACACOS: A ORIGEM | Rupert Wyatt

10. POESIA | Lee Chang-dong

20 FILMES QUE TAMBÉM AGRADARAM:

TUDO PELO PODER | George Clooney
O VENCEDOR | David O. Russell
INVERNO DA ALMA | Debra Granik
TURNÊ | Mathieu Amalric
BIUTIFUL | Alejandro González Iñárritu
UM LUGAR QUALQUER | Sofia Coppola
X-MEN: PRIMEIRA CLASSE | Matthew Vaughn
MEIA-NOITE EM PARIS | Woody Allen
CONTRA O TEMPO | Duncan Jones
RICKY | François Ozon
PASSE LIVRE | Bobby & Peter Farrelly
O HOMEM AO LADO | Mariano Cohn, Gastón Duprat
BALADA DE AMOR E ÓDIO | Alex De La Iglesia
REENCONTRANDO A FELICIDADE | John Cameron Mitchell
BRAVURA INDÔMITA | Ethan Coen e Joel Coen
OS AGENTES DO DESTINO | George Nolfi
O HOMEM DO FUTURO | Cláudio Torres
RESTREPO | Sebastian Junger & Tim Hetherington
AMANHÃ NUNCA MAIS | Tadeu Jungle
O PALHAÇO | Selton Mello

Os 10 piores filmes de 2011

1. LIXO EXTRAORDINÁRIO | João Jardim, Karen Harley e Lucy Walker

2. ALÉM DA VIDA | Clint Eastwood

3. EM UM MUNDO MELHOR | Susanne Bier

4. O DISCURSO DO REI | Tom Hooper

5. O TURISTA | Florian Henckel von Donnersmarck

6. 127 HORAS | Danny Boyle

7. SE BEBER, NÃO CASE! 2 | Todd Phillips

8. ASSALTO AO BANCO CENTRAL | Marcos Paulo

9. PÂNICO 4 | Wes Craven

10. DEIXE-ME ENTRAR | Matt Reeves

20 FILMES QUE TAMBÉM NÂO AGRADARAM:

CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR | Joe Johnston
O PREÇO DO AMANHÃ | Andrew Niccol
A CASA | Gustavo Hernandez
CONFIAR | David Schwimmer
SUCKER PUNCH – MUNDO SURREAL | Zack Snyder
QUERO MATAR MEU CHEFE | Seth Gordon
SPLICE – A NOVA ESPÉCIE | Vincenzo Natali
LARRY CROWNE – O AMOR ESTÁ DE VOLTA | Tom Hanks
BESOURO VERDE | Michel Gondry
EU SOU O NÚMERO 4 | D.J. Caruso
FÚRIA SOBRE RODAS | Patrick Lussier
DOCE VINGANÇA | Steven R. Monroe
A INQUILINA | Antti Jokinen
QUALQUER GATO VIRA-LATA | Tomas Portella
PIRATAS DO CARIBE – NAVEGANDO EM ÁGUAS MISTERIOSAS | Rob Marshall
CAÇA ÀS BRUXAS | Dominic Sena
CONAN, O BÁRBARO | Marcus Nispel
OS TRÊS MOSQUETEIROS | Paul W.S. Anderson
A MORTE E VIDA DE CHARLIE | Burr Steers
AMOR A TODA PROVA | Glenn Ficarra & John Requa

Em um Mundo Melhor

A novela do cotidiano em capítulos modernos

Crescer no mundo de hoje, segundo dizem, é uma missão árdua. Para a atual juventude, bullying é a palavra-chave que define esta última década. Alardeado em todos os meios, sejam jornalísticos ou não, o bullying, que designa atos de “violência” física e psicológica, nada mais é do que um desespero generalizado proveniente de um medo retrógrado em detrimento de um ritual de passagem da adolescência que não é novidade alguma. O bullying de hoje é o zoar de sempre.

O novo filme de Susanne Bier, Em Um Mundo Melhor, tenta investigar as razões do bullying e, consequentemente, o que leva as vítimas a agirem de modo agressivo. Sem meias palavras, Bier, ao lado do roteirista Anders Thomas Jensen, erra feio. Muito feio. Na intenção de averiguar um problema contemporâneo, diretora e roteirista elaboram um drama novelesco dos mais nauseabundos, exarcebados e previsíveis.

A relação entre os dois protagonistas infantis é inconsistente e inverossímil. Christian age como uma espécie de Henry Evans, o personagem de Macaulay Culkin em O Anjo Malvado, de 1993: com um semblante adulto e integralmente severo, ele se comporta como um verdadeiro psicopata ao passo que Elias é a síntese do moleque frágil zoado pelos mais velhos do colégio, sempre com os olhos esbugalhados, assustados, e com uma índole facilmente corrompida.

O que levam eles a serem desse jeito? Christian perdeu a mãe recentemente, e além de culpar o pai, este está sempre ausente. E os pais de Elias estão em processo de separção. Definitivamente: não são motivações suficientemente concretas para que eles, por exemplo, explodam um carro em determinado momento.

E em meio às páginas deste folhetim ainda há espaço para o pai de Elias, Anton, um médico que trabalha como voluntário em um campo de refugiados na África. Também vítima de bullying, quando é gratuitamente agredido por um homem estúpido, ele procura mostrar aos filhos que o idiota é o agressor quando na verdade a sua vontade é a de fazer o mesmo com o sujeito – por isso a cena óbvia em que ele entra no mar. Com esse desejo contido, Anton contempla determinada situação envolvendo um chefe do crime africano e parece perplexo e aliviado: ele não compreende o porquê da violência – tanta a que lhe acometeu quanto a que vê -, mas ela, que está acontecendo diante dos seus olhos, é uma válvula de escape para o bullying que sofreu. Colocar ambas as situações pelo viés de uma mesma análise, além de extremamente ofensivo, demonstra uma abismal falta de bom senso.

Falta de bom senso esta que atinge seu ápice na tentativa de suicídio que entrelaça o terceiro ato, culminando no diálogo a seguir que faz jus à alcunha de novelesco que Em Um Mundo Melhor recebe. Do início ao fim, tudo soa farsesco, excessivamente dramático (perceba como a diretora insere música de suspense em um simples diálogo entre pai e filho). E do início, quando vemos crianças africanas correndo felizes atrás dos médicos, para o fim, quando Bier repete o mesmo plano como se para refletirmos na geração porvir, é o espectador que fica feliz em poder se despedir dos pequeninos.

Hævnen – Susanne Bier – 2010 – 119 min. – 1/5

Missão: Impossível – Protocolo Fantasma

Quanto maior a altura, maior a queda.

Seja pulando de um prédio direto em um “colchão instantâneo”, seja escalando, tal como uma lagartixa, o prédio mais alto do mundo, seja pendurado no capô de um carro que corta uma tempestade de areia ou saltando das mais diversas alturas em um estacionamento vertical. A todo o momento, alguém está nas alturas em Missão: Impossível 4 – Protocolo Fantasma.

Na história, a IMF (Impossible Mission Force, ou Força Missão Impossível) é acusada de terrorismo, desativada, e agora busca acertar as coisas e voltar à ativa. Ela busca, na verdade, a ressurreição, na acepção total da palavra. A ascensão, estar nas alturas, não é tarefa fácil no filme dirigido por Brad Bird, diretor egresso de algumas das melhores animações da Pixar (Os Incríveis, de 2004, e Rattatouile, de 2007), além do sensacional O Gigante de Ferro, de 1999.

O protagonista, Ethan Hunt (Tom Cruise, no alto dos seus imperceptíveis 50 anos), sobe o prédio de Dubai, o maior do mundo, mas na volta – em queda livre – enfia a cabeça na janela. Ele se prende em cima do carro, mas é atirado ao chão no final – fora que ele mesmo se joga, algumas cenas depois, para usar o carro como uma arma. E no estacionamento, lá do alto, ele se atira ao chão com o intuito de cumprir a missão e sai lesionado – até mesmo na sequência inicial, aquela com o “colchão instantâneo”, o personagem sai machucado.

A intenção de Cruise e Bird é a de levar a franquia a outro patamar. O roteiro escrito por Josh Appelbaum e André Nemec, ambos egressos da televisão que estreiam no cinema, leva toda a equipe do IMF ao redor do mundo. Saem os Estados Unidos, entram outros países – com os Estados Unidos ao final, claro. Os efeitos especiais nunca estiveram presentes com tamanha abundância. O tom de aventura despojada impregna o filme inteiro, o que encontra respaldo no equipamento utilizado pelos personagens, bem no estilo deliciosamente falso dos bons tempos de 007. Ora, até a indicação numérica do título dá lugar a um subtítulo. A intenção, aqui, é mudar.

Tudo está muito maior, em larga escala, mas o tombo, infelizmente, assim como em todas as empreitadas do protagonista nas alturas, é inevitável. Na intenção de ir mais alto, eles se esqueceram do chão, a base: o roteiro. Confuso e desinteressante, ele parece ser apenas o aval para as sequências de ação – e a do prédio mais alto do mundo, apesar de extremamente bem realizada, tem o verdadeiro impacto apenas no final.

Os diálogos são terrivelmente óbvios, burocráticos e causam fadiga quando tentam explicar algo da trama ou de algum personagem que aconteceu no passado. A única exceção é quando vemos a sequência inicial com mais detalhes – que, no entanto, culmina em um dramalhão dos mais insossos. Aliás, qualquer vislumbre de drama em Missão Impossível – Protocolo Fantasma é a visão lúcida do aborrecimento. São cenas de folhetim, das mais nauseabundas, assim como são as motivações dos personagens: é o interesse romântico que se sacrifica e morre nos braços da amada e o silêncio de anos devido a um peso na consciência. No que diz respeito à história e o drama nela envolto, o filme se estatela na superficialidade com todas as forças.

E como a história é um elemento essencial em um longa da estirpe – de espionagem, segredos, mentiras e afins -, então este novo capítulo da franquia iniciada em 1996 é um fracasso inconcusso. Sorte de Brad Bird que John Woo já havia feito o segundo capítulo. Por causa disso, a queda não tinha como ser mais dolorida.

Mission: Impossible – Ghost Protocol – Brad Bird – 2011 – 133 min. – 2/5

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