
O Titanic não afundou
Depois de muitos anos, finalmente revi Titanic (1997), a grande produção de James Cameron que arrebatou 11 Oscar, fez multidões caírem aos prantos e críticos de cinema travarem batalhas contra o que foi – e ainda é – conhecido como um dos maiores engodos da história. Pois bem, correntes socioculturais a parte, fato é que o filme, hoje, depois de 15 anos, continua simplesmente magnífico.
Sim, sou daqueles que defendem Titanic. Foi-se o tempo das brincadeirinhas quanto a sexualidade de Leonardo DiCaprio – que hoje, graças à projeção do filme de Cameron, provou-se ser um ator de grande prestígio, trabalhou com grandes mestres como Steven Spielberg, Martin Scorsese e Clint Eastwood. Da mesma forma como Kate Winslet possui uma carreira de atriz invejável, laureada inúmeras vezes. Aliás, foi-se o tempo de qualquer esquete cômica ter o filme como alvo. O iceberg de chacotas ficou de lado e o Titanic continua navegando até hoje – com exceção de alguns poucos furibundos que insistem em torcer o nariz.
No entanto, por um lado é compreensível. Titanic é um romance permeado por personagens unidimensionais e com aquele verniz que parece ter sido fabricado especialmente para o Oscar. E foi. O filme remete aos grandes épicos, oras! Ele retrata um importante fato histórico com toda a magnitude e pompa cinemáticas que só se vê no cinema de vez em quando. Filmes como …E O Vento Levou (1939), Ben Hur (1959), Cleópatra (1963) e Titanic surgem apenas de tempos em tempos (pra quem não sabe, além de réplica exata das porcelanas, Cameron mandou construir o Titanic 30 metros menor). Produção invejável.
Por outro lado, é magnífico perceber a destreza de Cameron em comandar a narrativa. São mais de 180 minutos que passam voando. Cada plano é pré-concebido com um carinho evidente do diretor pela sua produção – da primeira parte à segunda, com o naufrágio, que figura entre as sequências mais esplendorosamente executadas no cinema. E até mesmo o roteiro escrito por Cameron, o que nunca é um bom sinal, é ótimo (seus melhores filmes, como os dois Exterminador do Futuro, foram escritos em conjunto)!
Como já dito, todos os personagens são unidimensionais. Mas em Rose, a mocinha vivida por Winslet, há algo além da superfície. Primeiro, Titanic, o navio retratado no filme, serve como simbolismo para sistemas políticos que beneficiam os ricos e relegam os necessitados a sobrevidas – no topo do navio, a nata da sociedade, na parte de baixo, a ralé que dorme com os ratos, e mais embaixo ainda estão os operários que jogam carvão para que o maquinário, e consequentemente a burguesia, possa seguir adiante e desfrutar de seus bens.
Três camadas: a sociedade alta, média e baixa representadas em um navio. E no meio disso está Rose, uma moça forçada a se casar com um ricaço para remover o nome da sua família da lama. Perceba como Cameron muitas vezes a capta com um olhar distante em meio às orgias gastronômicas e sociais da burguesia. Ela está completamente entediada e aborrecida com os caminhos que sua vida é levada pelas convenções da época. E é aí que entra Jack, o pobretão vivido por DiCaprio.
Sendo assim, o mais baixo calão da sociedade vem para salvar uma moça das amarras em que seu destino se encontra. O filme não é sobre o Titanic, muito menos Jack, mas sobre como Rose é salva de uma vida mecânica, de obrigações, e levada a outra determinada por suas próprias vontades. E isso, para uma produção de tal magnitude, com propósitos claramente lúdicos, não é pouca coisa. É preciso deixar de lado a comoção generalizada que o filme causou na época para enxergar Titanic com outros olhos.
Continua sendo um melodrama, mas é daqueles conscientes de que a sua diversão pode trazer algo a mais. E é definitivamente o último grande filme de James Cameron – nada daquela baboseira azulada em três dimensões em prol do meio-ambiente. Com Titanic, ele utiliza o que há de melhor no cinema para contar uma história sobre o que há de mais nobre em nós: a possibilidade sempre ao alcance de não nos afogarmos.
Relevante ao nível que um grande épico cinematográfico oscarizado deve ser.
Atualizado, 17/04: a versão convertida em 3D
Todo mundo sabe: Avatar (2009), de James Cameron, popularizou o 3D nos cinemas. Do seu lançamento até hoje, Cameron esbravejou contra quem convertia suas produções para o formato, já que o próprio se gabava por ter pensado em um filme inteiramente em três dimensões – fora que foi ele quem aprimorou a tecnologia.
Agora, Cameron relança nos cinemas a maior bilheteria de todos os tempos até a chegada de Avatar: Titanic (1997), também de sua autoria. Convertido em 3D. Dois filmes, dois formatos, um mesmo diretor e uma defesa que só tem justificativa quando revemos Rose e Jack de volta as tela: ele não é contra a conversão, mas contra um trabalho desleixado.
Por exemplo, Fúria de Titãs (2010), feito em 2D, convertido ao 3D em poucos meses ao custo de U$ 1 milhão, resultado: um filme deformado, literalmente. Titanic, feito em 2D, convertido ao 3D em 18 meses ao custo de 18 milhões, resultado: a redescoberta de uma grande obra-prima.
Aliás, tendo em vista a mente de Cameron, um cara que sempre mirou o aprimoramento técnico da linguagem cinematográfica, e levando em consideração que seu filme pós-Titanic foi Avatar, não é improvável que ele já tenha pensado Titanic em 3D.
O filme todos conhecem, mas com o 3D de “mentirinha” temos o prazer de redescobri-lo magnificamente. Agora sim, Cameron, nós te entendemos.
Titanic – James Cameron – 1997 – 194min. – 5/5
Titanic 3D – James Cameron – 2012 – 194min. – 5/5
E-mail: alexandre.carlomagno@yahoo.com.br
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