Ponto final para o Cinemorfose!

O Cinemorfose acabou.

Sim, este blogue encerra as suas atividades.

Mas fiquem calmos! Uma nova fase se concretiza.

O Cinemorfose está com outra cara, uma nova faceta. Mais funcional, prático, bonito e profissional.

A partir de agora, todas as minhas atividades relacionadas à crítica cinematográfica serão publicadas em um portal de Cinema (sim, com “C” maiúsculo) que visa um horizonte mais amplo.

Conheçam, vejam, leiam, critiquem, comentem e dêem sugestões. Esta nova casa é ainda mais sua!

E fiquem atentos! Com o tempo, muitas, mas muitas novidades surgirão.

É um ponto final para o blogue e um novo parágrafo para o portal.

Com vocês, senhoras e senhores, o Portal Cinemorfose (acesse o link ou clique na imagem abaixo): www.cinemorfose.com.br

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American Pie: O Reencontro

American Pie: O Reencontro é apenas o reencontro de American Pie

Sucesso estrondoso e inesperado em 1999, American Pie – A Primeira Vez é Inesquecível deu a luz a mais cinco sequências, sendo que as duas últimas são proles bastardas – lançados diretos em home vídeo, elas não são reconhecidas pelo estúdio. Assim, este American Pie: O Reencontro segue a cronologia a partir de American Pie – O Casamento (2003). O mote principal é reunir todo o elenco do original e vê-los após um hiato de 10 anos, tanto dramática quanto iconicamente falando.

O reencontro, que no título original é reunião (American Reunion), pretende reaver personagens antigos como se fossem nossos velhos amigos. Pretende-se, com este filme, trazer ares nostálgicos. Infelizmente ele não existe, e a razão é simples: a plateia que na época do lançamento do primeiro filme estava na faixa dos 15 anos de idade cresceu. Amadureceu? Difícil saber. Mas os personagens definitivamente não.

Por isso, o que se vê é um amálgama de pretensão nostálgica com ditos adultos inseridos em uma lógica deturpada: eles querem arruaça, mas ao mesmo tempo fogem dela. O filme entrega ao espectador a “putaria” (seios e closes em bundas dividem 50% do tempo da projeção) em âmbitos distantes dos personagens.

Jim (Jason Biggs) é casado com Michelle (Alyson Hannigan) e eles têm um filho – que, aliás, simplesmente é abduzido da trama em determinado ponto. E Jim deseja a filha do vizinho, Kara (Ali Cobrin), de quem tomava conta, agora com 18 anos. A vizinha também o deseja – ledo engano quem acredita que ela age apenas alcoolizada -, mas ele se contém em prol do matrimônio. Detalhe: ele reprime um desejo, mesmo quando a possibilidade de catarse encontra-se em suas mãos.

E isso nos leva a observar que, como o protagonista não consome suas vontades, cabe a nós, espectadores, consumir com os olhos (os tais seios a mostra, bundas e sensualidade). Quando em vestimentas fetichistas, Jim é exposto e ridicularizado. É a exposição que dita as regras aqui. Tudo o que pode ser maléfico é expulso de dentro dos personagens, assim como Jim, em prol do moralismo. Por isso ele se vê obrigado ao casamento, assim como Kevin (Thomas Ian Nicholas) e diferente de Oz (Chris Klein), que faz justamente o oposto: foge do que é tido como amoral aos olhos de terceiros, a sua esposa, para ficar ao lado da puritana com ares de beata Heather (Mena Suvari).

Toda a party, a curtição fica apenas envolta deles e não acontece com eles. O filme tem um estranho clima amoral mesclado com moralidades. Não sabe para onde rumar; não tem coragem de arriscar com seus personagens, por isso as escolhas são óbvias e o final idem – ainda com um brinde para novas reuniões, ou seja, se o longa refletir bem na bilheterias, ano que vem teremos mais.

Mas os personagens estão longe de ser icônicos, como a produção parece acreditar, por isso não nos conectamos com eles, e sua parcela dramática, com o passar de 10 anos, parece ter regredido, ou mesmo parado no tempo. Assim, American Pie: O Reencontro é apenas o reencontro de American Pie, com toda a superficialidade que este conceito carrega.

American Reunion – Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg – 2012 – 113 min. – 1/5

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O Incrível Hulk (2008)

Quando o aprofundamento é indiferente

Hollywood tem dessas coisas: a franquia de um determinado personagem não vingou, então recomeçam tudo do zero. É o caso de Hulk. A versão de Ang Lee, obviamente mais adulta, não agradou o público alvo (o infantalóide), o que consequentemente afetou a bilheteria (razão motora de produções da estirpe). Logo, uma inversão de valores se fez necessária: Louis Leterrier, diretor responsável por baboseiras como Carga Explosiva (2002), trouxe a verve que o estúdio tanto queria. O Incrível Hulk é uma versão abobalhada e superficial, principalmente se comparada à maravilhosa aventura anterior do personagem.

Como Lee já explorou muito bem a origem do personagem no filme de 2003, aqui os créditos iniciais já mostram como Bruce Banner (Edward Norton) sofre o acidente com raios gama que o levam a se transformar no “incrível” personagem-título. Só aqui já é possível montar um paralelo da qualidade entre os dois filmes: enquanto o primeiro ia fundo na construção do personagem, elaborando as razões que o levam à transformação (o que tomou 40 minutos de projeção), aqui isso é feito em alguns poucos minutos.

Na verdade, este Hulk de Leterrier foca em como Banner tenta, por conta própria, controlar o seu nervosismo – sensação que, se elevada, o leva a “hulkificar”. Seria uma continuidade interessante, já que anteriormente Banner chegava a afirmar que gostava da transformação, isso até o clímax, quando se revela claramente cansado do peso moral que carrega com o seu poder.

Porém, aqui, como o ângulo é invertido, tudo não passa de um subterfúgio para sequências de ação, embates com o vilão, alívios cômicos (a corrida de táxi chega a constranger) e um interesse romântico ralo e inverossímil – Liv Tyler na pele da cientista Betty Ross convence tanto quanto os pixels do Hulk. Este, aliás, muito mais artificial que na versão anterior – apesar de, sim, ter uma coloração menos pueril. Mas todas as suas aparições evidenciam sua natureza digital, algo que raramente via-se na produção anterior. E se levarmos em consideração o clímax, a artificialidade atinge níveis que, se não chegam a ser vergonhosos, incomodam.

Assim, Hollywood, com todo o seu poder, nos entrega duas versões: a adulta, para quem se interessa em ver bons personagens, em uma boa trama com a “parafernália lúdica” enquanto uma das bases, e esta versão que tem como força motriz o entretenimento barato e o aprofundamento como algo indiferente. Sendo assim, no final das contas, a escolha acaba sendo sua.

The Incredible Hulk – Louis Leterrier – 2008 – 112 min. – 2/5

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Hulk (2003)

Quadrinhos cinemáticos para adultos

Responsável por obras intimistas como Tempestade de Gelo (1997), o oscarizado O Tigre e o Dragão (2000) e, posteriormente, O Segredo de Brokeback Mountain (2005), nao causa espanto muitas pessoas torcerem o nariz para o feito do diretor Ang Lee com um dos mais cultuados personagens de HQ da Marvel. Via de fato, Hulk (2003), o filme, nao foi feito para os ávidos fãs do gigante verde, mas para os fãs de cinema.

Tambem conhecido como “gigante esmeralda”, o Hulk de Lee passa anos luz da ingenuidade muitas vezes presente nas historias em quadrinhos – cujo publico é formado majoritariamente por jovens, e levado adiante por adultos nostálgicos apaixonados pela arte, exatamente como produções cinematográficas da estirpe, os blockbusters. Ainda assim, ingenuidade pode ser encontrada aqui na paleta de cores do escritório dos cientistas, ou mesmo na primeira parte em geral. Cores muito vivas e levemente destoantes, lembrando os as HQ que eram coloridas a mão.

Pegar um personagem criado em 1962, hoje consagrado, e usá-lo como base para uma drama pessoal denso não é para qualquer um. Precisa ter os colhões de um Hulk, e Lee definitivamente tem. Toda a faceta lúdica da produção é uma mera desculpa para que o diretor possa elaborar a história de Bruce Banner (Eric Bana), um homem pertubado por sua infância. Um trauma que moldou sua personalidade à de alguém cauteloso, introspectivo, com dificuldades para se abrir emocionalmente e experimentar/vivenciar as sensações distintas que uma vida tida “normal” proporciona.

Não é a toa que seu relacionamento com a cientista e colega de trabalho Betty Ross (Jennifer Connelly) não foi adiante – ela mesma deixa claro a dificuldade do ex-companheiro em revelar seu íntimo. Não é a toa que ele evita confrontos, como os com Talbot (Josh Lucas), magnata coorporativo que deseja comprar a descoberta da dupla de cientistas: a possibilidade de regeneração da pele humana. E não é a toa que ele se poupa das próprias lembranças – andar de bicicleta, por exemplo, pode ser visto, simbolicamente, como um esforço contínuo e diário para que não caia em inércia e, consequentemte, enfrente o passado.

Banner, aqui, é retratado como alguém retraído que encontra na possibilidade de transformação a catarse. A chance de derrubar paredes construídas em uma vida descontinuada por um evento que lhe causou sérios danos psicológicos: a visão do pai enquanto um monstro, este não gigante e esverdeado, mas na forma de ser humano. O contraponto perfeito para que Lee e os roteiristas John Turman, Michael France e James Schamus (seis mãos geralmente são um péssimo sinal, o que felizmente não é o caso aqui) possam transformam o protagonista em um amálgama alegórico das dificuldades do indivíduo moderno em enfrentar as tensões do dia a dia. Dramaticamente perfeito.

Estéticamente, então, Hulk merece aplausos: a começar pela criatura digital que em momento algum deixa evidente sua natureza farsesca. A Industrial Light & Magic, empresa responsável pelos efeitos especiais, entrega um trabalho impecável (a textura da pele do personagem-título é palpável), isso atrelado à magnífica concepção visual de Lee ao deixar digital apenas o protagonista. Todo o cenário em volta, com o qual Hulk contracena (explode, derruba e joga aos altos define melhor), é real. Sua inserção ficou para a pós-produção, culminando em sequências esplendorosamente verossímeis.

Agora, a montagem de Tim Squyres, com quem Lee trabalhou em O Tigre e o Dragão, merece ser imortalizada e colocada em um pedestal. Ele conseguiu a proeza de trazer para o cinema a estrutura narrativa dos quadrinhos. Ao mesmo tempo que emula perfeitamente a arte em papel (em alguns momentos a tela é invadida por objetos em primeiro plano da cena seguinte, ou a tela é divida em diversos quadros, com diferentes perspectivas sobre uma mesma cena e por aí vai), ele deixa a narrativa cinemática com uma fluidez impecável – e parte da culpa da projeção de quase duas horas e meia passar tão rápida é sua. Um trabalho que demonstra claramente a diferença entre montagem e edição. É de encher os olhos.

Assim, temos um filme de super-herói concebido por intermédios dramaticamente intimistas em uma produção de larga escala que arrisca lindamente em seus princípios. Infelizmente, agradou a poucos. Felizmente, hoje, um filme perpetua além do cinema, e com Hulk não deve ser diferente.

Hulk – Ang Lee – 2003 – 138 min. – 5/5

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John Carter – Entre Dois Mundos

Diferença entre ficção-científica e fantasia?

Traçar um paralelo distinto entre ficção científica e fantasia pode ser tarefa ardilosa. Se a ficção-científica depende ou ao menos resvala na fantasia, quase como um apêndice obrigatório, a fantasia em si nem sempre, e muitas vezes não se debruça sobre a ficção-científica – isso se tomarmos esses subgêneros de formas pragmáticas. Dito isso, John Carter – Entre Dois Mundos é daqueles filmes que dissipa essa diferença.

Assumidamente uma ficção-científica fantasiosa (no conceito de “filme de fantasia”, tal qual O Senhor dos Anéis), o primeiro filme live-action (com pessoas reais) da Pixar dirigido por Andrew Stanton, responsável pelos ótimos Procurando Nemo (Finding Nemo, 2003) e Wall-E (2008), apresenta uma trama que funde esse dois subgêneros de forma harmoniosa. E isso se deve, principalmente, à literatura de Edgar Rice Burroughs (1875-1950), criador de Tarzan e autor de A Princesa de Marte (1912), obra no qual o filme se baseia.

Havia uma ingenuidade explícita nas obras ficcionais da estirpe concebidas no início do século passado, oriunda da carência de exploração do universo acerca da Terra, que hoje praticamente se extinguiu. Aliás, atualmente tem sido o inverso: materiais lúdicos têm sido tratados cada vez mais com uma percepção crua, como se tentassem explorar, através do cinema, o que é de ordem científica. Em outras palavras, John Carter, o filme, vem para resgatar o bom cinema; aquele se preocupa em nos transportar para outro mundo.

O mais interessante e importante a ser observado aqui é que os roteiristas mantiveram a época em que o livro foi feito. Nada de modernização temente à sociedade cada vez mais computadorizada. Não – aqui o protagonista é abduzido durante a guerra civil americana de 1868 e transportado para Marte, planeta na época apelidado de Barsoon. Lá ele encontra criaturas verdes, uma civilização em guerra e uma princesa que precisa de ajuda contra um tirano.

Tudo como pede um excelente programa de matinê, mas de longe com a mesma produção geralmente associada à sessão. A direção de arte, do início ao fim, é impecável. A reprodução de um país na Guerra de Secessão é daquelas que quase conseguimos sentir o cheiro do barro nas botas dos cidadãos, enquanto Marte, ou melhor, Barsoon é simplesmente encantadora por parecer que finalmente estamos nos adentrando, com a ajuda da tecnologia atual, em outro planeta. Das criaturas às suas naves movidas a energia solar e lunar, cada aspecto promove a suspensão da descrença. Quando menos percebemos, fomos sugados por todo universo apresentado na tela.

Infelizmente os roteiristas não conseguem esconder o final, que já é comprometido logo no início. Mas pouco importa, pois o caminho para chegar até lá é o que realmente vale a pena. Vale a pena a viagem fantástica, e vale a pena a recordação de que um cinema ingênuo não é sinônimo de ingenuidade.

John Carter – Andrew Stanton – 2012 – 132 min. – 4/5

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Espelho, Espelho Meu

Além de divertir, filme tem um fim

Como Hollywood vive em temporada de caça de franquia, é um alento ver um filme que se compromete em contar uma boa história. Uma, e só. Em Espelho, Espelho Meu há uma trama com começo, meio e, principalmente, fim. Dirigido pelo indiano Tarsem Singh, do ótimo The Fall, de 2006 (que por aqui saiu em DVD com o título Dublê de Anjo), o mínimo que poderíamos esperar deste filme seriam belas imagens – o indiano tem uma concepção visual de encher os olhos. Mas essa é apenas a base.

O roteiro escrito por Jason Keller não subverte, mas brinca bastante com o conto clássico A Branca de Neve, dos irmãos Grimm (personagens que protagonizaram o terrível filme de Terry Gilliam, Os Irmãos Grimm, de 2005). Ele inverte a ordem de alguns papeis, altera a personalidade de outros personagens (os sete anões são sete ladrões com pernas gigantes infláveis) e modifica o universo acerca da clássica história para uma estética mais lúdica, rebuscada e moderna.

Como anuncia A Rainha (Julia Roberts) no início do filme – com um belíssimo prólogo animado -, esta é a sua história. E realmente é, pois são suas ações que acabam surtindo efeito na construção da personagem Branca de Neve (Lily Collins) – que na primeira parte é acertadamente relegada a coadjuvante. Mas também não demora muito para que Branca cresça, enquanto personagem, e divida o cerne dramático com a Rainha, onde ambas tem como objetivo a busca pelo amor do príncipe Alcott (Armie Hammer).

A grande maioria dos valores morais de um conto clássico se faz presente, mas tudo a serviço de um ótimo entretenimento – que no final das contas leva a certas lições de moral, mas tudo muito bem concebido. O filme flui perfeitamente porque ele se preocupa em construir uma trama que calca degraus cada vez mais altos (de um simples conto passamos a ver o amadurecimento da personagem), e diverte demais porque o roteirista soube encaixar um humor leve, mas que serve para todas as idades (caso do anão que tenta esconder sua paixão por Branca de Neve).

E tudo isso corroborado pela primorosa direção de Singh. Além do seu habitual gosto pelo dourado (perceba que ele insere esta tonalidade sempre que possível, seja em abundância, como no vestido da rainha, ou em pequenos detalhes, como na adaga), o diretor indiano continua empregando sua câmera em planos que funcionam perfeitamente ao lado de uma beleza estética, como já dito, de encher os olhos. Basta observar a nova forma com que a Rainha conversa com o espelho – e até mesmo a direção de arte dentro deste conceito – ou como acompanhamos os personagens na floresta cheia de árvores em planos amplos, que aumentam a dimensão do cenário acertadamente claustrofóbico e com ares literários – parece que estamos vendo um livro em determinados momentos, o que apenas ajuda no caráter fantástico do filme.

Infelizmente, parece que dessa vez Singh encontrou uma maneira de empregar suas raízes “Bollywoodianas”: temos um número musical com dança no final! Sorte que isso acontece durante os créditos finais, em uma pequena tela no lado direito. Por pouco ele não dá um tiro no próprio pé, pois é praticamente impossível ver e ouvir tal sequência de tão nauseabunda e deslocada. Quando surge, o filme já acabou, o clássico “The End” já sumiu, então não afeta o que vimos, ainda que ela exista.

Com uma personagem feminina forte sem soar feminista – de longe, pois ela se apaixona pelo príncipe encantado –, uma modernização que não se desfaz das raízes da obra que usa como suporte e um visual encantador, Espelho, Espelho Meu consegue entregar, e com louvor, aquilo que pretende: alterar com dignidade um incontestável clássico infantil e construir uma nova visão. Mérito maior ainda dos realizadores, que não deixaram pontas soltas para uma possível continuação ou franquia.

Mirror Mirror – Tarsem Singh – 2012 – 106 min. – 4/5

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Protegendo o Inimigo

Os meios justificam a ação

Há filmes de ação e há Protegendo o Inimigo. Alguns optam por utilizar a trama como subterfúgio para o show de parafernálias, e outros utilizam o gênero de ação como base para a trama. É o caso deste ótimo Filme de Ação (em maiúsculo mesmo) dirigido por Daniel Espinosa.

O diretor não esconde seus segredos – ele quer mesmo entreter a plateia: câmera na mão, fotografia granulada, tom documental, ar emergencial com breves e benvindos momentos para respirar; parece que ele fez a escola Paul Greengrass de direção, e se o fez foi aprovado com louvor. A perseguição automobilística no início é excelente e já puxa boa parte do nosso fôlego para devolvê-lo em pequenas porções ao longo da trama, que conta com uma montagem entrecortada excelente.

Os cortes são dinâmicos e precisos: conseguimos absorver o impacto de cada colisão/golpe sem nos perdermos no meio da geografia da ação. E Espinosa filma na rua, o que é sempre mais interessante. Os coadjuvantes, em algumas das cenas, são cidadãos normais – ou ao menos passam a impressão, o que ainda é ótimo. Nada de milhares de extras como pano de fundo – apesar de em algumas sequências isso aparentemente se fazer necessário, como aquela no estádio.

No mais, temos um roteiro conciso, claro e objetivo: um protagonista que deseja alçar ambiciosos voos dentro da CIA é posto à prova quando a realidade no campo confronta sua experiência nos papéis ao ter que cuidar de um importante prisioneiro. De um lado, a inexperiência, do outro, um traidor, um ex-agente da CIA que há anos vende informações internas. O feto ao lado do ser humano, logo ambíguo.

Aos poucos, a moralidade de ambos se cruza por suas vidas – uma já e outra prestes a – dedicadas a uma organização governamental que, na teoria, deveria proteger uma nação, mas que protege a si mesmo. É como um Bourne sem amnésia que aos poucos ganha consciência de o que cerca a sua ambição.

Sofremos junto com o protagonista porque, de forma simbólica – da ação “irreal”, ficcional, da tela, para a nossa realidade -, todos já passamos por tal situação: teste de experiência e desconfiança. E há o interesse romântico, mas esse é tratado sem alarde – o que é ótimo, soa verossímil. Sem contar que ele dá a liga para um final perfeito: todas as pontas da trama são costuradas, o personagem cresce e é justamente o seu olhar que fecha o filme que sintetiza isso.

É a história de amadurecimento profissional e pessoal de um indivíduo justificando toda a parafernália, a ação.

Safe House – Daniel Espinosa – 2012 – 115 min. – 4/5

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Jogos Vorazes

Cadê a voracidade?

Sem Harry Potter – ou não – e na iminência do término total – ou não – da saga Crepúsculo, o cinema já está em busca da sua nova franquia infanto-juvenil que possa acarretar em bilheterias pomposas. O primeiro resultado dessa busca, e que já vem sendo alardeado como tal desencadeamento lúdico (livros, filmes, produtos e afins), é este Jogos Vorazes dirigido por Gary Ross.

Não por coincidência, o longa é baseado em uma peça literária com certo sucesso, no caso a obra homônima de Suzanne Collins, que ajuda no roteiro ao lado do próprio diretor e Billy Ray. Roteiro este que, apesar de mais espaçado, como se o enorme tempo gasto até o tal jogo do título trouxesse mais profundidade, só nos deixa ansiosos para a longamente anunciada correria. Fora que ele não consegue nos ludibriar de suas reais intenções, que é a de seguir a fórmula patenteada por Crepúsculo e companhia – um universo fantasioso, vilões e a divisão entre dois amores.

O problema não é a fórmula em si, mas como seus realizadores tentam desviar nossos olhares da sua superficialidade: por exemplo, passamos um enorme tempo no Distrito 12, uma das cidades adjacentes da Capital, mas sabemos apenas que eles são pobres que servem ao entretenimento dos ricos, que a garota sabe caçar, que ela tem uma canção de ninar que será repetida posteriormente, que há um amor não compreendido e por aí vai. Só a divisão de pobres e ricos já deixaria Karl Marx envergonhado tamanha é a leviandade e puerilidade com que tal conceito é abordado – não que um filme como tal tenha obrigatoriedade com o real, mas perucas roxas reluzentes e seres humanos com trejeitos de bonecos é forçar a barra, ainda mais em 2012.

E quanto ao jogo voraz em si, de nada ouvimos incômodos ou muito menos vemos ou sentimentos algo que justifique tal nome. O diretor faz questão de maquiar todas as sequências violentas (afinal, há crianças na brincadeira e o filme precisa de uma censura baixa), assim como parece não ter o controle da câmera nos embates que nem sangue envolve – e isso impregna o filme inteiro, pois muitas vezes sequer conseguimos absorver um panorama da Capital, por exemplo, sem que o anseio em acelerar a trama surja.

Gary Ross, responsável pelo ótimo A Vida em Preto e Branco (1998) e o bom Seabiscuit – Alma de Herói (2003), dois dramas delicados e com suas devidas porções de peculiaridades, lembra a escolha de Marc Forster para dirigir um filme de James Bond: ele simplesmente não sabe como conduzir um filme de ação e por isso acaba se sabotando. O que nos sobra são pedaços confusos, é preciso esforço para compreender sequências que deveriam simplesmente deitar sobre nossas retinas.

No que importa ao cinéfilo, filmes melhores já retrataram o mesmo universo do proletariado contra a burguesia – 1984 (1984) e Batalha Real (2000) são dois exemplos, e até mesmo o péssimo O Preço do Amanhã é mais interessante. E a questão dos reality shows enquanto diversão massiva de uma sociedade maniqueísta e opressora funciona apenas àqueles que ainda não têm idade suficiente para construírem um intelecto mais exigente. De voraz, aqui, apenas a vontade de criar outra franquia, pois até do final os realizadores nos privam.

The Hunger Games – Gary Ross – 2012 – 142 min. – 2/5

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Projeto X – Uma Festa Fora de Controle

A festa de hoje

O “Toga! Toga! Toga” imortalizado por John Belushi em O Clube dos Cafajestes (1978) já trazia essa ânsia do jovem estudantil em querer festejar até beirar o coma alcoólico ou amanhecer com a suspeita de paternidade. Neste Projeto X, prole do falso-documentário popularizado por A Bruxa de Blair em 1999, a ânsia continua a mesma, mas as motivações são outras.

Nos idos anos 70, John Belushi e sua irmandade da universidade brigavam pelo direito de festejar dentro de um sistema educacional que forçava um comportamento retrógrado – o que, no filme, culmina no plano anárquico do terceiro ato. E hoje, Projeto X mostra que os jovens lutam não contra a segregação latente que existe nas escolas, mas justamente para se encaixarem no estereótipo do “popular” e, assim, fortificar a individualização.

E não se enganem: Belushi e sua turma também queriam mulheres e muita bebedeira, assim como o trio de protagonista de Projeto X. Mas, no final das contas, o grande mérito do filme, aqui, acaba sendo o de nos mostrar como os tempos realmente mudaram. Se o antes o caos servia a um propósito de âmbito social mais abrangente, aqui ele serve unicamente a um indivíduo.

Um rapaz que até os próprios pais tacham como “perdedor” no quesito sociabilidade, que não consegue nem mesmo abrir o seu armário na escola sem ser humilhado; um jovem que representa todo um nicho acometido pelo o que atualmente se convencionou chamar de “bulling”. Ele destrói um bairro inteiro com a sua festa, causa danos financeiros monstruosos aos pais – enquanto até este reconhecem o feito do garoto em reunir tantas pessoas -, sofre diversos processos, mas não importa: no final, ele ficou popular.

Não fez amigos ou mesmo aumentou o seu círculo de amizades, mas apenas deixou a sua imagem mais socialmente aceita. Detalhe: tudo isso por um tempo, pois não basta ter uma reputação, é preciso mantê-la – e tudo isso a um custo que o próprio está pagando. Enquanto em o Clube dos Cafajestes – talvez o filme eterno sobre festividades na juventude – todos ali são amigos de verdade. No final, eles se unem. No final de Projeto X, o protagonista ganha aplausos, enquanto quem aplaude espera outra atitude similar dele.

Sim, o filme é muito engraçado, mas parece que as situações não foram bem exploradas. Poderia ter muito mais, mas a diretora Nima Nourizadeh se contenta com o caos. A narrativa propõe eventos cada vez mais hiperbólicos, e isso costurados com uma enxurrada de imagens de festa que, se não chegam a cansar, parecem meros enxertos. Isso sem contar o final com a dupla romântica (não, não podia faltar). Este final traz a mesma sensação da abertura da falecida série Freaks and Geeks (1999-2000), mas sem o verdadeiro rock’n roll que surge logo depois, e que em Projeto X vemos durante todo o filme na forma de música eletrônica.

Cada geração tem a festa que merece.

Project X – Nima Nourizadeh – 2012 – 88 min. – 3/5

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Fúria de Titãs 2

(…) uma sequência

Em uma sequência, o espectador percebe que filme anterior foi insignificante quando sua trama é explicada logo na abertura. É assim com Fúria de Titãs 2. E não poderia ser diferente, já que produções da estirpe utilizam a história em detrimento de sequências de ação, chamarizes de públicos e afins. Por sorte – ou por algum lapso do mínimo de inteligência por parte do estúdio -, os roteiristas aqui são outros.

Isso significa que a história é melhor? Sim. Logo, Fúria de Titãs 2 é um bom filme e, se comparado com seu antecessor, infinitamente mais interessante. Mas isso significa que a história é boa? Não. E a razão é simples, pois é da simplicidade que o filme faz uso para montar sua trama. Não é uma boa história, mas é melhor que a apresentada anteriormente porque traça um equilíbrio agradável entre suas motivações dramáticas e razões lúdicas.

Como não podia deixar de ser, mais uma vez o mundo está em perigo e cabe a Perseus (Sam Worthington), filho de Zeus (Liam Neeson), impedir que o caos se alastre. Metade humano, metade deus, Perseus vive com seu filho e segue a vida como pescador 10 anos após os acontecimentos do primeiro filme. Obviamente não espere momentos contemplativos: logo o chão começa a abrir, criaturas surgem e batalhas e mais batalhas seguem adiante.

Acontece é que Fúria de Titãs 2 flui muito bem. É uma diversão agradável e transcorre, apesar de previsível, não muito longe da obviedade – o que já é ótimo. Tome como exemplo a sequência na floresta, com os ciclopes. O diretor Jonathan Liebesman se preocupa em criar um clima. Ele mostra os destroços pelo caminho, o que faz os personagens indagar o que poderia ter causado aquilo, e deixa as criaturas na penumbra por um determinado tempo antes de revelá-las. Nada primoroso, mas eficiente, como a ótima sequência no labirinto.

E apesar de ter que lembrar o espectador de que o primeiro filme existiu, e isso há apenas 2 anos, os roteiristas não descartam eventos como o banimento de Hade (Ralph Fiennes), o que culmina em uma boa virada na relação do personagem com Zeus no terceiro ato. E o cerne dramático da história, que é a relação de Perseus com seu filho, também se beneficia com a simplicidade. No desfecho, é possível engolir a lição sem nos engasgarmos.

Como dito, bom é um adjetivo que existe aos montes em Fúria de Titãs 2. E se isso por um lado é… bom, por outro é ruim. Se daqui há dois anos houver uma terceira sequência, a recapitulada será necessária nos créditos de abertura. No final das contas, não há personagens, vilões ou uma trama realmente marcantes. É uma boa sequência, mas só: uma sequência.

Wrath of the Titans – Jonathan Liebesman – 2012 – 99 min. – 3/5

Observação: a clássica coruja do primeiro filme, de 1981, que Ray Harryhausen, mago dos efeitos em stop-motion, não queria utilizar, mas que foi obrigado pelo estúdio, mais uma vez marca presença como homenagem.

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Guerra é Guerra

Filme é filme

Produções como esta assinada por McG nos faz lembrar que uma obra de ficção é algo que, às vezes, passa longe da realidade. Se uma obra de ficção é a realidade vista por diversos ângulos, Guerra é Guerra são diversos ângulos que emulam uma realidade. O universo abordado aqui é contemporâneo, mas os elementos nele inserido são banhados por um verniz lúdico exarcebado ao ponto de soar farsesco, previsível e com um apêndice de moralidade asfixiante de tão óbvia.

Dois agentes secretos, FDR Foster (e ele realmente é apresentado aos outros pelo nome FDR) e Tuck vividos respectivamente por Chris Pine (ator de grandes produções tentando se manter na indústria) e Tom Hardy (o ator de produções menores, e melhores, tentando encontrar seu lugar na indústria), que também são grandes amigos, se apaixonam pela mesma mulher: Lauren, que por sua vez é vivida por Reese Witherspoon. A partir daí é possível imaginar por onde a coisa caminha – se não, veja o trailer.

O problema do filme não é seguir a cartilha do filme de ação romântico, mas simplesmente a sua execução. Começando pela direção: McG é uma espécie de Michael Bay de segunda categoria. No que diz respeito ao drama, a parcela romântica, o trio de protagonistas, quando em diálogos “profundos” ou simplesmente se estão frente a frente, aparecem banhados pela luz do Sol ou qualquer luminosidade que lhes dê uma impressão angelical – é como se eles fossem mais que seres humanos, mas não passam de objetos em prol de mecanismo cinemáticos.

Mas o principal problema mesmo está na dinâmica “desenvolvida” no trio amoroso, e aqui soma-se o roteiro à direção. Os dois agentes investigam a moça com o intuito de acertarem sempre ao agradá-la e ouvem dela confidências, mas, ainda por cima, sua vontade de experimentá-los. Ela opta, perante a eles, ainda que sem saber, por tratá-los como objetos sexuais antes de tomar uma decisão. Sendo assim, quando vem ao conhecimento de Lauren que FDR (sério mesmo?) e Tuck se conhecem, quem é ela para se martirizar? “Vocês acham que eu sou algum tipo de prêmio?”, ela clama ilógica e irracionalmente.

E quando chegamos ao terceiro ato, Guerra é Guerra toma proporções machistas. Logo após a descoberta citada acima, Lauren é posta em perigo. Os dois a salvam – em uma sequência que culmina no uso de efeitos especiais, algo que definitivamente não é o forte da produção e pode levar a gargalhadas. A mocinha escolhe um deles e parece mais atraída sexualmente após toda a correria e tiros por qual passou, ao passo que o outro retoma a sua esposa justamente porque esta descobriu nos noticiários que ele explode pessoas a serviço do Estado. Tudo isso, na verdade, para mostrar que a maturidade vem com o amor e que a família deve prevalecer. Machista e moralista!

No mais, há algumas boas risadas, mas só – e a sequência envolvendo o ataque de um cachorro enquanto a mocinha a ser conquistada não percebe não é nada perto do momento antológico que os irmãos Farrelly fizeram em Quem Vai Ficam com Mary? (1999), envolvendo um cachorro e a fiação do abajur. Guerra é Guerra é um filme com direção fraca, um roteiro falho (a existência de um vilão se justifica apenas para a existência do terceiro ato e para que a ação não deixe de existir), uma proposta de entretenimento que não funciona em sua maioria e, por causa disso, vem afirmar que muitas vezes um filme é só um filme.

This Means War – McG – 2012 – 97 min. – 2/5

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Shame

Ejaculação precoce seguida de uma brochada

Na máxima dos relacionamentos sexuais, quando um não quer o outro não tem. Em Shame, segundo longa-metragem do diretor do ótimo Hunger (2008), Steve McQueen (não confundir com o ator dos anos 70), isso vale de inúmeras maneiras.

No roteiro escrito por McQueen e Abi Morgan, temos o protagonista Brandon Sullivan, um viciado em sexo. Aliás, viciado não, dependente. Seja virtual ou real, ele precisa ter a sensação da ejaculação a todo o momento – no trabalho, em casa, na rua, com mulheres conhecidas em noitadas ou prostituas. É o que ele busca em uma mulher: a chance de ejacular. Nem mesmo transar, mas a possibilidade direta de finalizar uma transa – ele é, na verdade, dependente de ejaculação.

O diretor mostra bem isso no primeiro ato: praticamente sem dizer uma palavra, Brandon perambula pelos ambientes como que sexo latejasse em sua mente permanentemente. Ouvimos da secretária eletrônica do seu telefone, diversas vezes, a voz de uma mulher implorando para que ele atenda. Sua reação é apenas ignorar. Logo imaginamos se tratar de uma garota que não se esqueceu de uma boa transa. Mas não: é a sua irmã.

A chegada de Sissy Sullivan chega como um empecilho. A vida de Brandon centrada em sexo é abruptamente interrompida por uma pessoa desprendida da vida: ela chega para ficar, mas não sabe quando vai sair ou mesmo para onde irá. Isso, para ele, transforma-se em pesadelo: a vida de um dependente de ejaculação tem como confidente inseparável a solidão, logo ele precisa aprender a lidar com algo que abdicou em prol do hedonismo doentio: a família.

Muito no filme não é dito com a pretensão de o espectador acompanhar a jornada do personagem e preencher certas lacunas dramáticas. Mas acontece que não há nada com o que as preencher, pois Shame é um filme tecnicamente belíssimo (McQueen não concebe planos aleatórios), mas oco, carente do peso que ele acredita ter. Vemos na tela alguém que não consegue se relacionar devido à sua obsessão por sexo. Ponto. Há a tentativa de aprofundamento, principalmente envolvendo a irmã, mas nada se mostra minimamente interessante – culminando em uma montagem cronologicamente fragmentada envolvendo um hematoma: executada com precisão, a sequência não convence porque, primeiramente, as ações do protagonista não convencem.

É a estética bem lapidada em detrimento de uma visão dramática mais minuciosa. É um filme do diretor, não dos personagens do roteiro – tanto que em momentos primordiais para a narrativa ele nos priva dos rostos dos personagens. E não por simbolizar a “vergonha” do título, pois a “vergonha” vem da inadequação do personagem em seu próprio ambiente. Mas é isso pouco trabalhado. Como é o caso do computador da firma, quando eles recolhem e descobrem uma avalanche de pornografia. Quais as conseqüências?

Aliás, conseqüência aqui existe unicamente no terceiro ato, porém, injustificável. Sabemos que o protagonista carrega um fardo, mas como ele lida com ele perante a sociedade? Há vislumbres pífios, vazios, nunca uma sugestão mais concreta. Vemos que ele precisa lidar também com a irmã – o que resulta em uma conclusão óbvia e que sela por vez o quão desinteressante é o filme. Sendo assim, onde está a vergonha? A única presente é a do protagonista com sua própria condição. Superficial como a transa de uma noite só.

No final das contas, Shame revela-se um longa-metragem bem executado, mas com um roteiro extremamente falho e que parece mais interessado em conceber momentos que levem a lindas imagens, relegando o problema de Brandon a segundo plano, o que torna tudo vazio – com o ápice de New York, New York executada na íntegra, em ritmo de bossa nova moderna, proporcionando o vácuo tedioso, este sim simbólico, central do filme.

É como a máxima citada no início: o diretor quer, mas o protagonista não tem, o que culmina, para nós, espectadores, em uma grande brochada.

Shame – Steve McQueen – 2011 – 101 min. – 2/5

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Pina (3D)

O constante movimento da quietude

Neste novo trabalho do renomado diretor alemão Wim Wenders, Pina, há algo desfragmentado que, na tela, surge orgânico. O retrato que ele faz de Pina Bausch, não da persona, mas de sua dança, caracteriza em diversos aspectos cinemáticos e narrativos que corroboram para uma fluidez de ideias contemplativas. A Wenders não importa a figura, mas a dança de Bausch, e daí ele consegue praticamente extrair a alma humana com a utilização do formato 3D.

Não a alma cânone, mas enquanto busca infindável de significados que fogem a religiões e voltam para dentro de cada um. Uma moção psicológica, social, cultural e humana traduzida perfeitamente na dança e captada esplendorosamente por Wenders. No que é visto, tudo está claro: a relação do ser humano com a terra, personagem ao todo tempo presente, seja no chão, na posição de origem, natureza, ou quando por cima, simbolizando o caminho único que nos é dado, a morte.

Mas o documentário nos mostra muito mais que isso. As coreografias de Bausch carregam uma força que abrange um horizonte de sentidos muitas vezes até inalcançáveis. É, como já dito, contemplativo, e obviamente subjetivo – isso, até certo ponto.

Por exemplo, em “Café Mulher” (peça que, aliás, aparece em Fale com Ela, obra-prima de Pedro Almodóvar) temos uma mulher que se joga aos braços de um homem. Para os dois, bastam que estejam juntos. Mas eis que entra outro homem e coloca o casal em posição matrimonial. Ela se desvincula, mas a posição é forçosamente repetida – isso inúmeras vezes. A mulher, que cegamente (ela está de olhos fechados) corre de um lado para o outro, transpondo barreiras simbolicamente em forma de cadeiras que são desviadas por um garçom, quer amar da sua própria maneira, mas o homem – representando um sistema machista e retrógrado – não deixa.

Há um embate muito forte entre a mulher e o mundo machista representado na dança de Bausch, mas há também a luta do homem, na acepção ampla, contra as convenções de suas determinadas épocas. Tudo atemporal, dialogando de forma contemporânea, mas contornado por figurinos que evidenciam seu lugar na história – caso do inóspito ambiente inicial, com pessoas que remetem a tempos da escravidão, quando uma dentre diversas moças precisa entregar sua virgindade, ou, mais pra frente, na loucura das danças dos anos 60, com os anseios catárticos de ambos os sexos se aproximando do canto do salão. Representações unicamente pela dança.

E se o 3D funciona tão bem, é porque a movimentação é diegética, já emerge do universo à frente da lente. Uma câmera do formato não pode se movimentar demasiadamente, caso contrário a sensação de profundidade não toma a devida forma. Sendo assim, Wenders se preocupa “apenas” em posicionar-se bem. É o caso da câmera subjetiva na entrega da virgindade, a dança em forma de lua em uma escada rolante ou mesmo as coreografias em meio à cidade onde Bausch viveu, que também é homenageada pelas movimentações urbanísticas.

Alguns dançarinos da companhia de dança de Bausch, a Tanztheater Wupperta, aparecem em depoimentos “mudos”: seus rostos pairam sob as falas em off, que se transformam em narração. A forma de se comunicarem, no filme, vem apenas pela dança – tal como sempre foi o desejo da coreógrafa.

“Dance, dance, caso contrário estamos perdidos”, dizia Bausch – a declaração que encerra o documentário. Esse anseio pelo movimento constante é o âmago de sua busca por agitar as quietudes do ser humano, querer suscitar questões relevantes através da arte. E Wenders utiliza de sua arte com tamanha destreza para nos apresentar este universo, o universo pessoal de Bausch. E não fosse a bela coreografia em três dimensões concebida pelo diretor, a junção de ambas as artes, provavelmente estaríamos perdidos.

Pina – Wim Wenders – 2011 – 103 min. – 5/5

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Titanic

O Titanic não afundou

Depois de muitos anos, finalmente revi Titanic (1997), a grande produção de James Cameron que arrebatou 11 Oscar, fez multidões caírem aos prantos e críticos de cinema travarem batalhas contra o que foi – e ainda é – conhecido como um dos maiores engodos da história. Pois bem, correntes socioculturais a parte, fato é que o filme, hoje, depois de 15 anos, continua simplesmente magnífico.

Sim, sou daqueles que defendem Titanic. Foi-se o tempo das brincadeirinhas quanto a sexualidade de Leonardo DiCaprio – que hoje, graças à projeção do filme de Cameron, provou-se ser um ator de grande prestígio, trabalhou com grandes mestres como Steven Spielberg,  Martin Scorsese e Clint Eastwood. Da mesma forma como Kate Winslet possui uma carreira de atriz invejável, laureada inúmeras vezes. Aliás, foi-se o tempo de qualquer esquete cômica ter o filme como alvo. O iceberg de chacotas ficou de lado e o Titanic continua navegando até hoje – com exceção de alguns poucos furibundos que insistem em torcer o nariz.

No entanto, por um lado é compreensível. Titanic é um romance permeado por personagens unidimensionais e com aquele verniz que parece ter sido fabricado especialmente para o Oscar. E foi. O filme remete aos grandes épicos, oras! Ele retrata um importante fato histórico com toda a magnitude e pompa cinemáticas que só se vê no cinema de vez em quando. Filmes como …E O Vento Levou (1939), Ben Hur (1959), Cleópatra (1963) e Titanic surgem apenas de tempos em tempos (pra quem não sabe, além de réplica exata das porcelanas, Cameron mandou construir o Titanic 30 metros menor). Produção invejável.

Por outro lado, é magnífico perceber a destreza de Cameron em comandar a narrativa. São mais de 180 minutos que passam voando. Cada plano é pré-concebido com um carinho evidente do diretor pela sua produção – da primeira parte à segunda, com o naufrágio, que figura entre as sequências mais esplendorosamente executadas no cinema. E até mesmo o roteiro escrito por Cameron, o que nunca é um bom sinal, é ótimo (seus melhores filmes, como os dois Exterminador do Futuro, foram escritos em conjunto)!

Como já dito, todos os personagens são unidimensionais. Mas em Rose, a mocinha vivida por Winslet, há algo além da superfície. Primeiro, Titanic, o navio retratado no filme, serve como simbolismo para sistemas políticos que beneficiam os ricos e relegam os necessitados a sobrevidas – no topo do navio, a nata da sociedade, na parte de baixo, a ralé que dorme com os ratos, e mais embaixo ainda estão os operários que jogam carvão para que o maquinário, e consequentemente a burguesia, possa seguir adiante e desfrutar de seus bens.

Três camadas: a sociedade alta, média e baixa representadas em um navio. E no meio disso está Rose, uma moça forçada a se casar com um ricaço para remover o nome da sua família da lama. Perceba como Cameron muitas vezes a capta com um olhar distante em meio às orgias gastronômicas e sociais da burguesia. Ela está completamente entediada e aborrecida com os caminhos que sua vida é levada pelas convenções da época. E é aí que entra Jack, o pobretão vivido por DiCaprio.

Sendo assim, o mais baixo calão da sociedade vem para salvar uma moça das amarras em que seu destino se encontra. O filme não é sobre o Titanic, muito menos Jack, mas sobre como Rose é salva de uma vida mecânica, de obrigações, e levada a outra determinada por suas próprias vontades. E isso, para uma produção de tal magnitude, com propósitos claramente lúdicos, não é pouca coisa. É preciso deixar de lado a comoção generalizada que o filme causou na época para enxergar Titanic com outros olhos.

Continua sendo um melodrama, mas é daqueles conscientes de que a sua diversão pode trazer algo a mais. E é definitivamente o último grande filme de James Cameron – nada daquela baboseira azulada em três dimensões em prol do meio-ambiente. Com Titanic, ele utiliza o que há de melhor no cinema para contar uma história sobre o que há de mais nobre em nós: a possibilidade sempre ao alcance de não nos afogarmos.

Relevante ao nível que um grande épico cinematográfico oscarizado deve ser.

Atualizado, 17/04: a versão convertida em 3D

Todo mundo sabe: Avatar (2009), de James Cameron, popularizou o 3D nos cinemas. Do seu lançamento até hoje, Cameron esbravejou contra quem convertia suas produções para o formato, já que o próprio se gabava por ter pensado em um filme inteiramente em três dimensões – fora que foi ele quem aprimorou a tecnologia.

Agora, Cameron relança nos cinemas a maior bilheteria de todos os tempos até a chegada de Avatar: Titanic (1997), também de sua autoria. Convertido em 3D. Dois filmes, dois formatos, um mesmo diretor e uma defesa que só tem justificativa quando revemos Rose e Jack de volta as tela: ele não é contra a conversão, mas contra um trabalho desleixado.

Por exemplo, Fúria de Titãs (2010), feito em 2D, convertido ao 3D em poucos meses ao custo de U$ 1 milhão, resultado: um filme deformado, literalmente. Titanic, feito em 2D, convertido ao 3D em 18 meses ao custo de 18 milhões, resultado: a redescoberta de uma grande obra-prima.

Aliás, tendo em vista a mente de Cameron, um cara que sempre mirou o aprimoramento técnico da linguagem cinematográfica, e levando em consideração que seu filme pós-Titanic foi Avatar, não é improvável que ele já tenha pensado Titanic em 3D.

O filme todos conhecem, mas com o 3D de “mentirinha” temos o prazer de redescobri-lo magnificamente. Agora sim, Cameron, nós te entendemos.

Titanic – James Cameron – 1997 – 194min. – 5/5

Titanic 3D – James Cameron – 2012 – 194min. – 5/5

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A Separação

Separando aspectos humanos para universalizá-los

A princípio, o título do filme atrelado à imagem de um casal transmite a ideia imediata de que o assunto tratado será às voltas do matrimônio. Quem se deixar levar por essa primeira impressão pode se decepcionar com A Separação, novo trabalho do diretor e roteirista iraniano Asghar Farhadi.

Claro, os trâmites de duas pessoas que não desejam mais viver juntas se fazem presentes. Mas o filme vai além. Farhadi pega para si a palavra separação e destrinça suas características pragmáticas. Na trama de Nader (Peyman Moadi) e Simin (Leila Hatami), pais de Termeh (Sarina Farhadi), que se envolvem em um incidente com a moça contratada para cuidar do pai de Nader que sofre de Alzheimer, a separação surge de inúmeras maneiras.

Temos a separação matrimonial. A mulher deseja sair do Irã e levar a sua filha, mas isso só pode acontecer com o consentimento do marido, que por sua vez não permite devido à enfermidade de seu pai – mesmo sendo uma mudança que ambos planejavam há tempos. Simin está visivelmente exausta de viver em um status quo machista. Ela quer se emancipar de um sistema masculino que a controla, chegando a utilizar a doença do sogro como uma de suas justificativas – “Ele sequer te reconhece!”, no que ele responde, coerentemente, “Mas eu sei que ele é meu pai.”

Temos a separação da moral. Envolta por questões dúbias, a situação envolvendo a moça que deveria cuidar do senhor com Alzheimer, mas que, por razões que não convém expor aqui, aparentemente sofre uma agressão de Nader, traça uma reta que corta a moralidade em duas partes: todos querem se proteger, logo a verdade toma muitas formas, sempre de acordo com interesses próprios. Fora que a moral da moça é avidamente divida pela religião, o que mais tarde na trama culmina em total separação: ela precisa escolher entre ambas.

Temos a separação dos sentimentos. Depois da discussão judicial logo no início, Simin passa a morar fora de casa. Não sabemos como era a vida dentro daquelas paredes anteriormente, mas temos um forte indício quando o pai de Nader simplesmente passa a gritar o nome de Simin, indicando que ela era encarregada de tomar conta do senhor ou ao menos cumpria um papel ao lado dele muito mais próximo que o próprio filho. E nisso, de forma sintética, o afastamento de Nader e Simin gera um enorme amálgama de emoções que são desconectadas, inseridas em um hiato indefinido – separadas, por que não dizer?

Aqui, temos a separação como um todo e de forma abrangente. Farhadi toca fortemente em questões pertinentes ao papel da mulher no Irã, mas ao mesmo tempo aborda questões universais. No país que seja, relações humanas sempre transcendem nacionalidades, pois sentimento, moral e matrimônio, entre tantos e tantos outros aspectos maravilhosamente abordados por A Separação, são, no final das contas, pertinentes a nós mesmos, espectadores, independente de onde estejamos.

E dessa forma o cinema de Farhadi, em um tom lírico talvez, é uma obra-prima dicotômica: utiliza a separação para unificar aspectos humanos.

Jodaeiye Nader az Simin – Asghar Farhadi – 2011 – 123 min. – 5/5

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